Há sempre um vilão rápido no feed. Desta vez, vem dentro de uma cartela: o antidepressivo. O entrevistado desta coluna conta que passou a receber vídeos segundo os quais a indústria farmacêutica induz as pessoas a se viciarem nesses medicamentos.
A suspeita cabe numa frase; a saúde mental, não. Antidepressivos podem ter efeitos colaterais e, ao interrompê-los, algumas pessoas sentem sintomas de retirada. Isso, por si só, não prova dependência. Reduzir ou parar o remédio é decisão para discutir com o profissional que acompanha o paciente, não com um vídeo de poucos segundos.
O homem que ouvi, e que pediu para não ser identificado, conta que deixou o antidepressivo e começou um tratamento homeopático. Na 14ª semana, diz, os sintomas começaram a voltar. Ele continuou e ouviu que, se não melhorasse, passaria a outra abordagem, mais cara. Depois desistiu, voltou ao psiquiatra que o acompanhava antes e retomou a medicação. Relata que teve de enfrentar novamente os efeitos que sentira ao iniciar e interromper o tratamento. É uma experiência que merece ser ouvida. Não é prova de que a homeopatia causou a piora.
Há outro ponto que não pode ficar escondido no rodapé: CRM não é sinônimo de psiquiatria. O entrevistado diz que pesquisou o profissional e entendeu que estava diante de um psiquiatra. O CRM identifica o registro médico; a especialidade exige qualificação registrada e o respectivo RQE. O próprio CFM lista homeopatia e psiquiatria como especialidades distintas. Um médico pode ter as duas, desde que tenha os registros correspondentes. A impressão do entrevistado não prova que alguém tenha mentido ou se anunciado indevidamente. Para afirmar isso, seria preciso verificar exatamente o que ele consultou.
E aqui está a distinção que costuma sumir na conversa: o CFM reconhecer a homeopatia como especialidade não prova que ela seja eficaz contra a depressão. O NIH, por meio do NCCIH, aponta pouca evidência de que a homeopatia trate eficazmente uma condição específica. Antidepressivos não são para todo mundo, mas podem ajudar algumas pessoas quando indicados e acompanhados. A crítica que importa não é contra quem procura alívio. É contra o atalho que vende certeza, embaralha credenciais e empurra alguém a trocar cuidado sem entender o que está em jogo. Credencial não substitui evidência. A evidência não cabe em um slogan.
