Categoria: Contos

  • 7X7 – Depois de muita bebida…na dúvida, é melhor fazer um check-up

    Sentia o corpo cada vez mais mole. Ele, que sempre gostou de levantar-se cedo, agora não conseguia acordar antes do meio-dia, apesar do barulho e agitação da rua. Nos dois últimos dias, não teve ânimo nem para o banho, nem para aparar o bigode. Reconhecia que estava exagerando um pouco mais da “caninha”. Mas que coisa!.. em outras épocas bebia muito mais!

    Ajuntou as coisas de qualquer maneira e foi até o orelhão. Sabia o número decorado. Do outro lado, atenderam. Respondeu todas as perguntas, deu o endereço. Sentiu uma pontadinha do lado esquerdo da barriga. Remorso ou ansiedade?

    Em 7 minutos a ambulância estacionou em frente ao número informado. Um muro pichado escondia a antiga fábrica de papel. Um morador de rua se aproximou da viatura. Deitou-se no chão.
    Então, era ele quem havia ligado?…

    Reviraram-no ao avesso, fizeram perguntas, mas nenhum sinal grave encontrado.

    Cumpriu-se o protocolo. No rádio, já outro chamado. Para garantir o lugar, o “paciente imaginário” levantou-se do chão. Correu até à ambulância, abriu a porta, deitou-se na maca. Com voz firme, ordenou:

    • Anda! anda! vamo! depressa! vamo embora!

    Levaram-no para a AMA- Lapa. A surpresa maior foi saber que lá, ele já era velho conhecido. De vez em quando, Seu Antônio Bigode, morador de rua, de tanto se encharcar, aparecia por lá, querendo fazer uns inzames de ultrassong e Xêkapi!

    (7X7 é uma série ficcional, baseada em fatos reais vivenciados por um socorrista em São Paulo). 5º episódio.

  • 7X7 | Falta de equilíbrio e asfalto quente: uma combinação perigosa

    Não era a primeira vez que recebiam aquele tipo de chamado. Vítima com queimadura grave.
    Era sexta-feira, sete horas da manhã. Havia caído uma chuva fina. A ocorrência não era longe, mas o trânsito estava terrível. Ligou a sirene. No caminho, um carro da polícia deu cobertura. Chegaram em 7 minutos.

    O condomínio estava em fase final de construção. As casas de 80 metros quadrados em dois andares, cheirando tinta nova, a grama plantada na véspera e o paralelepípedo branco contrastavam com o cheiro e a cor do asfalto fresco da pavimentação das ruas.

    Trabalhando há dois anos como ajudante de pedreiro, Antônio nunca tinha estado doente, desde que se mudara para São Paulo. Tinha com ele um santo protetor poderoso, assim dizia, do qual herdara o nome e no qual tinha muita fé.

    Era baiano de nascença, mas paulistano de paixão, sentimento que nutria desde pequeno. O namoro antigo, teria se iniciado com a chegada em casa, da primeira televisão. Aqueles prédios enormes envidraçados, ruas cheias de gente e carros, que apareciam nas novelas e no noticiário, mexeram com sua imaginação. Assim, quando jovem, não teve mais dúvidas. Vendeu o pouco que tinha e partiu.

    O começo difícil em São Paulo se estendeu pelo resto dos anos. Fez de tudo um pouco: vendeu cd’s piratas nas ruas, balas nos trens e ônibus, foi chapa de caminhão, lavou muito carro até poder exercer sua verdadeira vocação: ser ajudante de pedreiro. Casou-se, teve filhos.

    Naquela sexta-feira, chegou cedo no condomínio em construção. Tomou o café, trocou a roupa e foi logo pegando seu carrinho de mão. Encheu de areia até onde pôde. Saiu do depósito. Virou a esquina. Freou. À sua frente, o asfalto fresco cobria toda a rua. Pensou. Decidiu passar pelo paralelepípedo. Empurrou o carrinho pesado. Subiu. O vapor quente do betume entrou por suas narinas. Instintivamente levantou um dos ombros para tampar o nariz. Perdeu o equilíbrio. Em fração de segundos, espalhados sobre o piche fervente: areia e homem. Na tentativa de se erguer, outras partes do corpo entraram em contato com a matéria pegajosa e quente.

    O Samu logo chegou. Na entrada do condomínio, avistaram um vulto negro, de braços abertos, correndo em direção à ambulância. Gritava de dor. Colocaram-no na maca. O betume, a carne, a pele, o tecido da roupa eram uma coisa só. Usaram pela primeira vez, a atadura importada sobre a massa disforme. Aliviou a dor. Levaram-no para o Hospital das Clínicas, direto para a ala de queimados.

    De volta à Base, no lugar da sirene, ressoava na memória, os gemidos sofridos de dor.

    (7X7 é uma série ficcional, baseada em fatos reais vivenciados por um socorrista em São Paulo). 4º episódio.

  • 7X7 | Os ricos também choram

    Era seu primeiro atendimento na Vila Madalena. Lotado na Lapa, até então os chamados tinham se resumido ao atendimento a velhos senhores e amáveis senhoras vítimas de quedas ou de problemas cardíacos e respiratórias.

    Saiu com a sirene ligada. Talvez nem precisasse. Alcançou a Pedroso, entrou por ruas bem tranquilas do bairro. Não gastou mais do que sete minutos. Parou em frente ao número, achou estranho, pensou ser um trote. Estranhou, sim, a ausência da vizinhança tão comum nas emergências da Lapa. No antigo bairro, os longos anos de convivência entre as famílias haviam formado um exército de solidários, que precavidos, já tratavam de reservar espaçosa vaga, para a viatura estacionar. De longe, já se via gente batendo os braços, sinalizando o local exato da ocorrência. Sempre prontos para prestar “socorro” aos socorristas, ofereciam-se para tomar conta da ambulância, ajudavam a carregar macas, perguntavam sobre o estado do paciente e para qual hospital seria levado. Na saída, abriam caminho, parando o trânsito. Agradeciam, elogiavam.

    Na Vila, porém, nenhuma alma viva. Olhou o celular. Quatro e vinte da tarde. Estava com a impressão de ser bem mais tarde, de tão agitada estava aquela segunda-feira. Os atendimentos da manhã já formavam um quebra-cabeças na memória.

    Pegou as anotações. Conferiu o chamado. “Segundo eco Terceiro” …. Coçou a cabeça…. Costumavam ser bem complicados.

    Um senhor atendeu a campainha. Muito aflito, enquanto atravessava corredores, salas, salões, guiando a equipe, lamentava o ocorrido.

    Chegaram no quarto onde um jovem estava estirado no sofá.
    Assim que examinado, os dados foram anotados, transmitidos e a remoção autorizada. Na última Intoxicação Etílica, a pouco menos de um mês, o rapaz havia estado em coma. No exame, alguns sinais de alerta foram percebidos.

    Voltou até à ambulância, para pegar a maca. Custou a acertar o caminho, tão grande era a casa.

    Não havia imaginado o socorro aos ricos. Pensava que todos eles, em suas emergências, fossem socorridos por seus planos de saúde, em veículos confortáveis e equipados ou por helicópteros e UTI’s aéreas. Ainda bem que mantinha a ambulância sempre limpinha e com o check-list em dia. Assim, não ficaria envergonhado.

    Posicionou a maca ao lado do sofá. Estendeu os braços para oferecer auxílio. O jovem, ergueu-se um pouco e com um aperto mole da mão, disse: – Muito prazer e muito obrigado… Podem ir! Vocês devem estar muito ocupados!
    Insistiram na remoção. Não teve jeito.

    Atordoado, com olhos lacrimejantes, o pai assinou o Termo de Recusa.

    Enquanto a equipe voltava para a ambulância, carregando equipamentos e maca, outro chamado no rádio.

    (7X7 é uma série ficcional, baseada em fatos vivenciados por um socorrista em São Paulo). Terceiro episódio.

  • 7×7 | O outro lado do trote

    Olhou o celular. 13:52.

    – Ufa! Será que vou ter ao menos 10 minutos para o almoço!? Que manhã estressante! Chuva o tempo todo, trânsito terrível. Dois acidentes com moto, criança ferida, maca presa no Hospital do Servidor, tudo muito desgastante!
    Colocou a marmita no micro-ondas e foi lavar as mãos. Assentou-se para tirar as pesadas botas. Escutou a voz no rádio. Foi ver o que era. A colega de plantão já estava na escuta: – … Q.A.P … Q.S.L…. Ela desliga o aparelho apressada. Era um “6 eco 1” na Lapa.

    Correu para retirar a marmita do micro-ondas. Colocou de volta na geladeira. Tinha que ganhar tempo. Saiu carregando as botas.

    Esqueceu o cansaço e a fome. As paradas cardíacas exigiam um esforço físico extremo, muita perícia e agilidade. O apoio do Avançado seguiria depois, mas no primeiro atendimento, só ele e a enfermagem.

    Ligou a sirene logo na saída da Base. O som estridente se misturava com o da barriga roncando de fome. Pegou o trânsito parado. Teve que se virar. Atravessou uma enxurrada pela contramão. Subiu no passeio de um quarteirão inteiro da Rebouças, com muita cautela, para furar o engarrafamento. Em 7 minutos alcançou a Aurélia. Percorreu a Rua Tito, por duas vezes, de cima a baixo. O número não foi encontrado. Ligou para a Central…. Confirmado o trote.,, QTI …

    De volta para a Base, trânsito infernal, sirene desligada, a barriga roncando e o rádio da Central pipocando chamados.

    7X7 é uma série ficcional, baseada em fatos reais

  • 7×7 | Almoço com conhaque… faz mal?

    7 x 7 – Histórias reais, em 7 minutos, de um socorrista em são paulo

    Naquele dia acordou desanimado. Era domingo, dia das mães. Pensou no primo carioca, convidado para o almoço da família. Imaginou o “puxa-saco” sentado na mesa, a bacalhoada borbulhando na panela de barro. Que droga! Com a mente borbulhando, vestiu a farda. Calçou as botas. Pegou a marmita na geladeira e saiu.

    Quando passou no concurso, pensou mil vezes. Sempre quis trabalhar na rua. Apesar do diploma de curso superior, sentia um tremendo mal-estar estando trancado, de frente a uma mesa cheia de papéis, clicando teclados, o universo resumido em uma tela. Apreciava o movimentar das coisas reais. Era observador e solidário. Não havia um mendigo que deixasse de ir até o vidro do seu carro, para pedir-lhe uns trocados. Sempre dava alguma coisa e ainda puxava conversa. Sentia-se como um imã a atrair as margens do mundo. Por isso, a convocação para socorrista fez disparar-lhe o coração. Iria sem pestanejar, se não fosse a carga horária: 12/36. Trabalhar aos domingos? No Natal? No Réveillon? Seria impossível! Repensou. Aceitou o desafio.

    Acostumou-se com a nova rotina, mas, naquele domingo, sentia-se incomodado. Seu prato predileto seria servido no almoço, acompanhado pelo vinho, que ele dera na véspera, de presente para a mãe. No seu lugar, estaria o primo glutão, dando risadas e abocanhando o peixe.

    Chegou à Base da Politécnica, com sete segundos de atraso. Ficou envergonhado, afinal a pontualidade era sua marca registrada, mesmo nos domingos e feriados. Rendeu o socorrista da noite. Tomou o café. Colocou-se à espera dos primeiros chamados. Haveria muitas ocorrências? Dia das mães deveria ser sagrado.

    Neide, a enfermeira do plantão, enfim chegou. Trazia de casa uma bela lasanha e belíssimas filhas sorridentes, para o almoço do dia das mães. Nada mal… Mais animado, buscou no bar da esquina, os refrigerantes.

    Por volta do meio-dia, a mesa preparada, ouviu-se o rádio: – QSM! QSM!. – Ocorrência… Vítima feminina, idade quarto, nulo… desacordada … numeral sétimo sexto, Rua MDC, em frente ao ponto de ônibus.

    A lasanha foi guardada no forno, as filhas, já não tão sorridentes, ficariam esperando.

    O trânsito estava livre. Nem precisou acionar a sirene. Em sete minutos chegou. No ponto de ônibus, a senhora estendida no chão…

    Dona Vitória, há dois anos morando em São Paulo, tinha se levantado muito cedo. O emprego como doméstica, numa mansão no Morumbi, foi conquistado com muito sacrifício. Ainda estava pagando o curso de cozinheira do SENAC. Mas valeu a pena. Sua habilidade na cozinha havia conquistado a patroa, que não se cansava de contar às amigas, detalhes dos seus pratos saborosos. Isso até aquele dia fatídico!

    Não teve como deixar de atender o insistente pedido da patroa. Aceitou trabalhar no domingo. Teria preferido ficar com os dois filhos pequenos. Ao levantar-se sentiu-se estonteada. Não deu importância. Pegou o ônibus até a estação de Carapicuíba, pegou o trem. Desceu na Barra Funda, pegou o metrô. Desceu no Butantã, pegou o ônibus. No domingo, sempre demoram. Desceu no Morumbi. Subiu os cinco quarteirões. Atrasada, foi direto para a cozinha, começou a preparação do almoço.

    Ao meio-dia o 192 recebe um chamado.

    – Alô! Uma senhora está caída na calçada!…

    Ao ser tocada, abriu os olhos, retomou os sentidos. Os sinais vitais estavam alterados. Foi colocada na maca e levada até o PS-USP. No caminho, chorou e desabafou. Justo naquele dia, a casa da patroa cheia de convidados, a cabeça pesou, o calor da cozinha piorou, tão agitada estava, com mil coisas a fazer ao mesmo tempo, acabou queimando o almoço. Foi humilhada, cobrada pelo prejuízo e despedida do emprego.

    No retorno para casa, pegou o ônibus, desceu no Butantã. Atordoada, parou no primeiro bar. Pediu uma garrafa de conhaque. Virou tudo. Com a cabeça rodando e as pernas vacilando alcançou o ponto de ônibus. Não viu mais nada.

    E lá na Base, a lasanha esfriando e as filhas, já nada sorridentes, esperando…