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  • Quando a mulher se torna apenas “mãe”

    Em sociedades dominadas por homens, a “ordem natural” reduz a mulher à função materna. Na Grécia Antiga (460 a.C. – 370 a. C.), as mulheres, tanto espartanas como atenienses, tinham como sua principal função cuidar da casa e dos filhos, enquanto os maridos guerreavam. Alguns bons séculos se passaram e procriar e cuidar do lar permanecem como qualificações inertes a nós.

    Quando crianças, nós meninas ninamos bonecas e brincamos de casinha, sem saber, que ali já somos mães. Quando maiores, algumas de nós cuidamos dos irmãos ou sobrinhos, com a mesma destreza de mães. Seguindo à risca, assim, num belo dia, nos sentimos preparadas ou somos condicionadas a assumir como próprias “mães”. E, mesmo com tantos testes drives, tudo muda, pois a partir da descoberta da gravidez nas mais simples das situações, tudo o que se verá é:

    • Num passeio no parque?
    • “Olha ali, uma grávida andando”.
    • Num estádio de futebol?
    • “Que bacana, uma grávida torcendo”.
    • Em sua própria formatura?
    • “Minha nossa, a grávida se formou”.

    E, com isso uma lista absurda de comportamentos também é feita sobre o que se espera ou não de uma mulher grávida. O olhar de julgamento sufoca caso ela ouse andar de bicicleta, dançar numa balada ou berrar em um protesto.

    Mulheres grávidas aparentemente só prestam para esperar, tanto o nascimento do filho, quanto essa fase passar para ela voltar a viver.

    Só que não tem volta, né? Muitas de nós sabemos. E, apesar de ser muito errado reduzir a mulher à mãe, no fim das contas é mais errado ainda criticar ou escolher não fazer parte disso, numa sociedade que romantiza a maternidade. “Conceber um filho é uma dádiva”. “Amor maior do mundo”. “Só vamos saber o que é ser mãe quando formos”. Cilada!

    Se recuse a ser unicamente mãe. Fique em paz, se não quiser. E só aceite ser mãe e mais um pouco. Mais um muito. Um muito que, não necessariamente te sobrecarregue porque você dará conta de tudo. Quem precisa ser multitarefa se houver o compromisso do outro? Não aceite ser chamada unicamente de “grávida”. Seja antes de tudo mulher. Isso sim com todo o poder da palavra.

  • Feminicídio: quando ousar é morrer e calar é morrer ainda mais

    Em 2015, entrou em vigor a lei nº. 13.104/2015, que tipifica o feminicídio como crime hediondo, motivado por questão de gênero. De lá pra cá, pesquisas indicam que a cada três horas uma investigação por feminicídio é aberta no Brasil.

    “Eu fico olhando ele dormir toda noite. Ele não faz um ruído, sabia? É uma coisa assustadora. Não ronca, não respira alto. Parece alguém em coma; um semimorto. Como é possível? Isso não é justo. Não está certo ele dormir assim enquanto eu passo a noite cuidando do meu corpo cheio de dor. Cada tapa, cada soco, cada pontapé me deixa toda marcada, está vendo? A minha pele está toda roxa. Tem uns lugares em que os hematomas nem saem mais. Está vendo a minha coxa? É o lugar que ele mais chuta. Acho que é porque essa parte do corpo está sempre coberta e ninguém vê as marcas. Eu nunca mais vesti um short. Nunca mais fui à praia, acredita? Mas as coxas não me preocupam. Na hora em que ele começa a bater eu só me lembro de usar as mãos e os braços para proteger a cabeça. Faço uma espécie de redoma, de escudo. Assim, está vendo? Mas tem hora que ele me pega desprevenida. Eu morro de medo que ele machuque os meus olhos. Ou a minha cabeça. Fico imaginando como seria ficar em cima de uma cama. Dependendo dos outros; dependendo dele. Imagina o que mais ele faria comigo.” (Cinthia Kriemler)

    O futuro de mulheres é decidido todos os dias por homens. O futuro ou a inexistência dele. Assim, ocorreu com a policial militar Juliane dos Santos Duarte, de 27 anos. Bastou uma ousada identificação como integrante da polícia em um bar na comunidade Paraisópolis para acabar assassinada brutalmente a tiros e escondida no porta malas de um carro.

    Em Guarapuava (PR), duas semanas antes, a advogada Tatiane Sptizner, de 29 anos, foi jogada pelo marido Luís Felipe Mainvailer, do 4º andar do apartamento, após sofrer agressões brutais durante toda a noite, registradas em câmeras do edifício.

    Mais recentemente, no último dia 7 de agosto, a Lei Maria da Penha completou 12 anos e nesse mesmo dia o nome de Adriana Castro Rosa Santos, de 40 anos, entrou para as estatísticas. Ela foi assassinada a tiros nessa terça-feira (7/8) pelo marido, o policial militar Epaminondas Silva Santos, 51 anos, que, em seguida, tirou a própria vida.

    “Uma mulher que apanha do marido só vai à delegacia quando ela está no seu limite, depois de sofrer muito. Fui queimanda com ferro de passar roupa por me negar a ter relações sexuais com meu marido. Fui à delegacia dar queixa e a delegada perguntou se eu tinha testemunhas do fato. Ora, eu estava ali queimada. Só me senti uma mulher livre para criar meus dois filhos depois que enfrentei meu marido com um facão. Foi só aí que ele parou de me espancar. Após seis tentativas de separação, fui vítima de cinco balas disparadas por meu ex-marido, e eu carrego todas essas marcas e a cicatriz na alma. Ele foi condenado a apenas cinco anos de prisão, mas, mesmo assim, a Lei Maria da Penha é um avanço e uma esperança”. (Roseni – Brasília DF)

    A gênese do crime de feminicídio é o relacionamento abusivo.

    “Eu sofri violência quando eu tinha 17 anos de um namorado meu. No começo ele era muito cuidadoso,carinhoso,se mostrava um amor de pessoa,depois fui ver que não era assim. A primeira vez que ele me bateu ele estava muito bebâdo, e me deu um tapa na cara, porque ele não havia gostado do que eu disse pra ele. No momento fiquei muito apavorada, desci do carro e queria ir embora de taxi, mas ele me ligou e eu voltei pra ele. Na outra vez que ele me bateu foi em uma discoteca na frente de todos porque eu havia perdido um cartão que dá acesso a conta da boate. Eu chorei muito, e os amigos dele queriam me levar embora mas eu acabei perdoando ele mais uma vez.”
    (Luciana Andrade – Foz do Iguaçu PR)

    “O Brasil ocupa o 5º lugar no ranking mundial de feminicídio”. (Conselho Nacional de Justiça). De acordo com o G1, 12 mulheres são caladas diariamente no país. “Calar” é exatamente o termo correto, já que o homicídio decorre da primeira e única tentativa da mulher em se ver livre do que vive – ou se morre. Ali, naquele súbito de voz, de força, a voz mais alta que bate, também mata. E na melhor das circunstâncias se morre, achando que o golpe deve ainda matar menos, do que já se está morta. Só que não era, né? Para tudo acabar assim, em silêncio…