Às vezes, uma dúvida que surge diante de um paciente não termina na consulta. Pode se transformar em uma pergunta de pesquisa e, com tempo, orientação e estrutura, contribuir para melhorar o cuidado. Mas essa ponte entre atendimento e ciência não se sustenta apenas na vocação de alguns médicos. Ela depende das condições que universidades e sistemas de saúde oferecem.
Um comentário publicado na Nature em 12 de outubro alerta para a redução do número de médicos que também pesquisam. Nos Estados Unidos, eles representavam quase 5% da força médica nos anos 1980; hoje, são cerca de 1,5%. No Reino Unido, a proporção de médicos seniores em carreira acadêmica caiu de quase 5%, em 2009, para aproximadamente 3%, em 2025. Os autores apontam obstáculos como financiamento instável, falta de tempo protegido para pesquisa e pouco apoio profissional.
No Brasil, há um desafio anterior: garantir que todos os cursos ofereçam uma formação consistente. Na primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica, o Enamed, 107 dos 351 cursos avaliados receberam conceitos 1 ou 2, classificados como insatisfatórios. Isso equivale a cerca de três em cada dez cursos.
O número acende um alerta, mas precisa ser entendido pelo que mede. O Enamed avalia o desempenho dos concluintes em uma prova. Não resume todos os aspectos de cada curso e não mede diretamente se há professores, laboratórios ou tempo disponíveis para pesquisa. Tampouco permite concluir que todas as faculdades de Medicina do país tenham formação de baixa qualidade.
Há uma ressalva técnica. O Inep reconheceu uma inconsistência nos dados preliminares enviados às instituições, relacionada à nota de corte. O órgão afirmou que a falha não alterou os resultados finais divulgados.
A avaliação dos cursos e a redução da carreira médico-científica são problemas diferentes. Mas se encontram em uma pergunta importante: como formar médicos capazes de avaliar evidências e, ao mesmo tempo, criar espaço para que alguns deles produzam conhecimento?
Um ensaio na PLOS Global Public Health descreve barreiras enfrentadas por médicos-pesquisadores em países de renda baixa e média, entre elas a longa formação e incentivos financeiros que favorecem a prática clínica exclusiva. No Brasil, uma carta de perspectiva publicada nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia defende que as escolas médicas fortaleçam suas estruturas de pesquisa e aproximem a investigação da assistência.
Não é necessário que todo médico se torne pesquisador. Mas é importante que a formação ensine a diferenciar evidência confiável de promessa e a reconhecer os limites de um estudo. Para quem deseja seguir na ciência, são necessários orientação, financiamento e tempo protegido. Sem essas condições, a pesquisa pode parecer uma carreira distante, mesmo para quem começa a graduação interessado em investigar.
O Enamed aponta que uma parcela expressiva dos cursos teve desempenho insatisfatório na avaliação. O alerta da Nature chama atenção para as dificuldades de manter médicos na pesquisa. São sinais distintos, mas que ajudam a pensar o mesmo compromisso público: oferecer uma formação sólida e permitir que a ciência chegue mais perto da vida dos pacientes.
Referências
[1] Keep medical doctors in academia — without them, health-care research will suffer
[2] Veja lista e notas dos 351 cursos de Medicina avaliados no Enamed
[3] Inep confirma inconsistência em dados do Enamed enviados às faculdades
[4] What it takes to become a physician scientist in a low- and middle-income country
