Como a política aprendeu a fabricar dúvidas científicas

A receita dos políticos para transformar mentira em verdade e fazer você acreditar neles.

A receita dos políticos para transformar mentira em verdade e fazer você acreditar neles.

Olha, meus amigos, a gente vive num tempo em que a verdade virou uma mercadoria barata, manipulada ao sabor dos ventos políticos. E o que é mais grave, a ciência, que deveria ser a bússola, acabou virando um joguete nas mãos de quem prefere a narrativa ao fato, a ideologia à evidência.

Lembro bem da pandemia, um período que expôs a fragilidade de muita gente, mas também a desfaçatez de alguns líderes. No Brasil, o tal ‘kit Covid’ foi um espetáculo à parte, uma espécie de road movie do negacionismo, onde a cloroquina e a ivermectina eram as estrelas de um show de horrores sem base científica. O governo, com seu capitão à frente, transformou a medicina em palanque, ignorando a OMS e os estudos sérios, empurrando para a população um coquetel de placebos que, no fim das contas, só serviu para alimentar a ilusão e, em muitos casos, a tragédia. Era a estrada da irresponsabilidade pavimentada com meias-verdades e um desprezo olímpico pela vida alheia.

Mas não pensem que essa aberração é exclusividade nossa. Do outro lado do Atlântico, o ‘laranja’ de Washington, Donald Trump, também surfou na onda da hidroxicloroquina, citando um estudo francês pífio, com 36 pacientes e falhas metodológicas gritantes, como se fosse a tábua da salvação. Quando a ciência de verdade, aquela que não se dobra a caprichos eleitorais, mostrou que o remédio não passava de fumaça, ele partiu para o ataque, desqualificando instituições e cientistas. É a velha tática: se os fatos não se encaixam na sua história, mude os fatos, ou melhor, ataque quem os apresenta.

Essa gente não está interessada em debater, em construir. Eles querem destruir a confiança, semear a dúvida, criar um nevoeiro onde a mentira e a verdade se confundem. É o ‘manufacturing doubt’, a arte de fabricar incertezas, que a indústria do tabaco já dominava com maestria . É o ‘cherry picking’, a seleção a dedo dos dados que convêm, ignorando a montanha de evidências contrárias . É o ‘science washing’, a maquiagem científica para disfarçar a ignorância . E, claro, as ‘falsas controvérsias’, onde um consenso científico sólido é tratado como um ringue de luta livre, só para justificar a inação ou a loucura . Tudo isso potencializado por bots e perfis falsos, criando uma ilusão de apoio popular.

Mas, em meio a essa névoa de desinformação, surgem os verdadeiros heróis: cientistas que, com a paciência de um monge e a acidez de um bom uísque, vão para as redes sociais, para os podcasts, para as lives, desmascarar cada mentira, cada distorção. São eles que, com dados na mão e a verdade na ponta da língua, tentam iluminar o caminho, mesmo sabendo que a batalha é árdua e que muitos preferem a escuridão confortável da ignorância. É um trabalho de formiguinha, um contra-ataque silencioso, mas essencial para que a razão não seja completamente soterrada.

E aqui, entre nós, fica a ironia amarga: escrevo este texto, com suas referências e análises, sabendo que a maioria daqueles que mais precisam lê-lo jamais o farão. Afinal, quem se alimenta de narrativas prontas e aplaude a desfaçatez política raramente tem apreço pela leitura, pelo questionamento, pela busca incessante do conhecimento. É um ciclo vicioso, onde a preguiça intelectual se encontra com a conveniência ideológica, e a verdade, ah, a verdade fica à beira da estrada, esperando um carona que talvez nunca chegue.

O resultado? Uma sociedade que perde a capacidade de discernir, de tomar decisões informadas. A ciência, meus caros, não é um buffet onde você escolhe o que te agrada. É um método, um caminho, e quando ele é sabotado por interesses políticos, quem paga a conta é sempre o povo. E essa é uma conta que sai muito cara.