A cerca de 320 anos-luz da Terra, WASP-189b é um planeta que não entraria em nenhum roteiro de férias. Trata-se de um gigante gasoso com temperatura de equilíbrio estimada em cerca de 3.354 kelvins, tão quente que elementos normalmente encontrados em rochas aparecem em sua atmosfera como gases. Para a astronomia, porém, esse inferno tem uma utilidade: permite observar ingredientes que, em planetas menos extremos, são difíceis de detectar.
Com o espectrógrafo IGRINS, instalado no telescópio Gemini South, uma equipe internacional mediu magnésio e silício na atmosfera do planeta e comparou suas proporções com as da estrela que ele orbita. Também identificou ferro, vapor d’água, monóxido de carbono e hidroxila. As razões entre magnésio, silício e ferro ficaram compatíveis com as da estrela, dentro das incertezas da medição. Publicado em fevereiro na Nature Communications, o estudo oferece uma evidência observacional inicial para uma ideia usada há muito tempo em modelos de formação planetária: a química da estrela pode dar pistas sobre a matéria-prima dos mundos que se formam ao seu redor.
A palavra importante é “pistas”. Astrônomos usam a composição estelar como uma espécie de referência para estimar do que podem ser feitos planetas rochosos distantes. Mas WASP-189b não é rochoso. É um gigante gasoso, e os próprios autores ressaltam que a atmosfera de um planeta assim não evolui como o interior de uma Terra. A observação fortalece uma hipótese; não transforma um único caso em lei universal.
Nem mesmo a expressão “composição semelhante” significa que planeta e estrela sejam cópias químicas. O estudo encontrou proporções compatíveis para alguns elementos formadores de rocha, mas também estimou uma proporção de elementos refratários em relação aos voláteis cerca de 2,4 vezes maior que a da estrela, com incerteza considerável. O universo, ao que parece, não trabalha com kits prontos vendidos em embalagem familiar.
Também não há notícia de vida, água líquida ou de uma segunda Terra. O avanço é mais modesto e mais útil: medir diretamente a química de um exoplaneta e testar uma ferramenta que poderá ajudar a estudar mundos rochosos no futuro. Às vezes, para procurar condições de vida, a ciência começa pelo lugar onde ninguém conseguiria viver.
Referência:
A stellar magnesium to silicon ratio in the atmosphere of an exoplanet, Nature Communications
