No Brasil, o debate sobre o etanol no tanque do carro ganhou ares de cruzada. De um lado, a indústria e o governo, com seus números e incentivos. Do outro, uma legião de influenciadores digitais, como o mecânico Alexandre Generoso, o ADG, que bradam aos quatro ventos que o combustível verde é o vilão dos motores, especialmente os de injeção direta. Uma narrativa que, de tão repetida, começa a soar como verdade absoluta para muitos, gerando uma espécie de fé cega na desgraça automotiva.
Mas, como sempre, a realidade é um pouco mais complexa que os vídeos virais e as teorias da conspiração automotiva. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), essa senhora que tenta colocar ordem na casa, nos trouxe dados que jogam uma luz diferente sobre a questão. Em 2024, a ANP realizou mais de 13 mil fiscalizações em postos, e quase 28% das autuações foram por comercializar produto não conforme. No caso do etanol hidratado, o problema estava na massa específica e no teor alcoólico. Ou seja, não é o etanol em si, mas o etanol adulterado que faz o motor chorar e o bolso do consumidor sangrar.
E aqui vai a parte mais importante, para que não haja confusão: os carros Flex são feitos para o etanol! Sim, é isso mesmo. Desde que o combustível esteja com a composição correta, dentro das especificações, ele não vai estragar seu carro. Para desmistificar de vez a lenda urbana, fomos buscar a palavra dos especialistas. Gilberto Pose, da Raízen, e Antonio Alexandre Ferreira Correia, da Petrobras Distribuidora, ambos ouvidos pelo Instituto Combustível Legal, são categóricos: o uso exclusivo de etanol em motores Flex não traz qualquer problema. Pelo contrário, o etanol proporciona maior potência e torque devido à sua octanagem superior. E a história de que é preciso misturar gasolina para “lubrificar” o sistema? Mera balela. Os motores Flex são projetados e dimensionados para o etanol, com tratamento de revestimento das peças que previne oxidação e danos, inclusive no escapamento. A única diferença notável, segundo Correia, é uma menor carbonização do motor com o uso do etanol.
É o velho truque do gato e do rato, agora com a engenharia a nosso favor. Enquanto a ANP corre atrás dos espertinhos que diluem o lucro na gasolina com etanol anidro demais, ou que batizam o etanol hidratado com substâncias duvidosas, a culpa recai sobre o combustível. Uma ironia sutil, mas perversa: o problema não é a natureza do etanol, mas a natureza humana, sempre disposta a cortar caminho em busca de um trocado a mais. E, nesse jogo, tanto a gasolina quanto o etanol são vítimas potenciais da má-fé, e o consumidor, o eterno refém. A verdade, ao que parece, está menos no tipo de combustível e mais na sua procedência. E isso, meus caros, é um problema que nem o mais engenhoso dos motores pode resolver sozinho, mas que a informação clara e a fiscalização rigorosa podem, quem sabe, mitigar. Pensem nisso na próxima vez que o algoritmo lhes sugerir um vídeo alarmista.
