Consultórios de luxo e fraudes de reembolso: o lado sombrio da nova dermatologia

Consultórios de luxo e fraudes de reembolso: o lado sombrio da nova dermatologia

Existe um momento, dizem os neurologistas, em que o cérebro decide que a dor já foi longe o suficiente. Não é cura. É adaptação. E essa diferença — invisível nos exames, palpável em quem vive — é o que nos separa de uma medicina que cura para uma que apenas adorna. Ou pior, que explora. Caminho por um consultório no interior de São Paulo, o cheiro de lavanda artificial misturado ao de antisséptico, e me pergunto: a quem serve tanto luxo?

Não se trata de inveja, mas de uma inquietação que se aninha na garganta. O dermatologista, jovem, talvez nem dez anos de formado, ostenta um espaço que faria inveja a cirurgiões plásticos com décadas de bisturi. Uma opulência que contrasta com a realidade da saúde pública e, por vezes, com a própria remuneração média da categoria. Dados recentes apontam que um dermatologista no Brasil pode ter uma média salarial que varia de R$ 7.660 a R$ 12.177 mensais, com especialistas em clínicas maiores alcançando entre R$ 20.000 e R$ 60.000. Valores expressivos, sim, mas que dificilmente justificam a arquitetura de um templo ao botox e ao preenchimento, onde cada procedimento pode custar entre R$ 1.500 e R$ 5.000, ou mais.

O Brasil, afinal, é o segundo maior mercado de estética do mundo, um setor que movimenta bilhões e cresce a taxas anuais de 7% a 14%. Não há nada de errado em buscar o bem-estar, em suavizar as marcas do tempo ou em corrigir o que nos incomoda. A questão reside na mercantilização da pele, na transformação da saúde em um produto de luxo, acessível apenas a quem pode pagar. E, para quem não pode, surge a sombra do “reembolso assistido”.

Essa tática, que se disfarça de facilidade, é um abismo ético. A clínica oferece-se para cuidar de todo o processo de reembolso junto ao plano de saúde, pedindo, em troca, o login e a senha do paciente. Em muitos casos, o paciente é “isento” do pagamento inicial, acreditando que está recebendo um benefício. Mas o que se esconde por trás dessa cortina de fumaça é uma fraude. As clínicas emitem notas fiscais com valores inflados ou fracionados, buscando maximizar o retorno financeiro. O paciente, sem saber, torna-se cúmplice de uma ilegalidade.

As consequências são brutais e se aprofundam. Planos de saúde, como Bradesco, SulAmérica e Amil, estão endurecendo as regras, exigindo comprovantes de pagamento bancário (TED/Pix) e, pior, cancelando contratos de segurados envolvidos. O Tribunal de Justiça de São Paulo tem proferido decisões duras, considerando nulos os contratos de reembolso assistido. Mas a punição vai além: operadoras estão bloqueando e excluindo vitaliciamente beneficiários e seus familiares em casos comprovados de fraude. Empresas contratantes, ao serem notificadas sobre fraudes de seus funcionários, têm aplicado demissões por justa causa, transformando a busca por um atalho em um drama pessoal e profissional.

Para os médicos e clínicas, os riscos são igualmente severos. A prática de solicitar reembolso sem o desembolso efetivo do paciente pode ser enquadrada como estelionato ou fraude, com implicações criminais. Contratos de cessão de direitos de reembolso são declarados nulos pela justiça, deixando clínicas desamparadas juridicamente. Além do dano à reputação, há a possibilidade de processos éticos no CRM e ações criminais. O setor de saúde suplementar, que perdeu entre R$ 30 e R$ 34 bilhões em fraudes e desperdícios em 2023, está investindo pesado em tecnologia – reconhecimento facial, auditorias rigorosas e cruzamento de dados eletrônicos – para identificar notas fiscais infladas ou fracionadas.

É a pele que sangra, não de um corte, mas de uma ferida na confiança. A medicina, que deveria ser um porto seguro, transforma-se em um campo minado de interesses. E nós, os pacientes, os cidadãos, os corpos que habitam essa informação, somos deixados com a pergunta suspensa no ar: até onde vai a busca pela perfeição, quando ela nos custa a própria dignidade?