Categoria: Saúde

  • O milagre em pó e a indústria da ilusão

    O milagre em pó e a indústria da ilusão

    A creatina funciona, mas o marketing que a transformou na nova panaceia nacional é apenas mais um truque para esvaziar o seu bolso na busca por atalhos.

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    A cena é clássica e se repete em qualquer esquina, academia ou roda de conversa deste país. Alguém saca um pote branco, mistura um pó branco na água e bebe com a solenidade de quem acaba de descobrir o elixir da juventude. A creatina virou a nova religião nacional. Nas redes sociais, influenciadores com dentes brancos demais e músculos desenhados em laboratório vendem a ideia de que, sem ela, você está fadado ao fracasso físico e mental. É a promessa do milagre engarrafado, a solução mágica para a fadiga, a falta de memória e a flacidez. Mas, como tudo que vira febre no Brasil, a verdade está soterrada sob toneladas de marketing e promessas vazias.

    Não é a primeira vez que assistimos a esse filme. O brasileiro tem uma vocação quase poética para acreditar em atalhos. Já fomos a nação do ômega 3, que prometia limpar as artérias e turbinar o cérebro. Já engolimos cápsulas de cogumelo do sol como se fossem a cura para todos os males. Já brindamos com catuaba em busca de vigor inesgotável. E, mais recentemente, vimos a Anvisa ter que intervir na farra das cápsulas de ora-pro-nóbis, vendidas como a salvação nutricional definitiva. A indústria de suplementos sabe exatamente como apertar os botões do nosso desespero por saúde e performance. Eles criam a necessidade, embalam a solução e cobram caro por ela.

    A ironia, no caso da creatina, é que ela não é uma fraude. Longe disso. A ciência é robusta e clara. A Sociedade Internacional de Nutrição Esportiva (ISSN) já cravou: a creatina monohidratada é o suplemento nutricional ergogênico mais eficaz disponível para atletas em termos de aumento da capacidade de exercício de alta intensidade e massa magra. Ela funciona. Ela ajuda a ressintetizar o ATP, a moeda de energia das nossas células, permitindo que você levante mais peso, corra mais rápido em tiros curtos e se recupere melhor. Há evidências sólidas de seus benefícios para idosos, ajudando a combater a sarcopenia quando associada ao treinamento de força. Há até estudos promissores sobre seu papel na neuroproteção e na recuperação de lesões.

    Mas aqui está o pulo do gato: a creatina é útil em contextos específicos. Ela é brilhante para quem levanta peso, para quem faz treinos de explosão, para o idoso que precisa manter a massa muscular para não cair e quebrar o fêmur. Ela não é, no entanto, a poção mágica que vai transformar o sedentário convicto em um atleta olímpico. Se você passa o dia sentado na frente do computador e sua maior atividade física é caminhar até a geladeira, a creatina não vai fazer milagre. O excesso será simplesmente filtrado pelos seus rins e descartado na urina. Você estará, literalmente, urinando dinheiro.

    E por falar em dinheiro, o custo-benefício é a grande falácia dessa moda. O mercado brasileiro de suplementos explodiu, e a creatina lidera as vendas. Potes que custavam uma pechincha há alguns anos agora são vendidos a peso de ouro, impulsionados pela demanda artificial criada pelo marketing digital. Vende-se a ideia de que todos precisam suplementar, ignorando o fato de que uma dieta equilibrada, com carne vermelha e peixes, já fornece uma quantidade razoável de creatina. Para a população em geral, o investimento em comida de verdade, sono adequado e exercícios regulares traria um retorno infinitamente maior do que qualquer pó branco.

    A segurança do uso é outro ponto que merece atenção. Sim, a creatina é segura para indivíduos saudáveis, mesmo em uso prolongado. Mas a banalização do consumo ignora a individualidade biológica. Pessoas com histórico de problemas renais precisam de acompanhamento médico antes de embarcar nessa onda. A suplementação indiscriminada, sem orientação, é um risco desnecessário assumido em nome de uma promessa estética.

    O que vemos hoje não é uma revolução na saúde pública, mas um triunfo do marketing. A creatina foi sequestrada pela indústria da ilusão, embalada como a resposta para a nossa exaustão crônica e nossa insatisfação com o espelho. Ela tem seu lugar, tem sua eficácia comprovada, mas não é a panaceia que os algoritmos tentam nos empurrar goela abaixo. É preciso separar a ciência do sensacionalismo. É preciso parar de buscar atalhos em potes de plástico e encarar a realidade de que saúde e performance exigem esforço, disciplina e suor. O resto é apenas barulho e poeira.


    Referências

    [1] Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Anvisa proíbe suplementos alimentares com ora-pro-nóbis. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/anvisa-proibe-suplementos-alimentares-com-ora-pro-nobis

    [2] Kreider, R. B., et al. International Society of Sports Nutrition position stand: safety and efficacy of creatine supplementation in exercise, sport, and medicine. Journal of the International Society of Sports Nutrition, 14(1), 18. 2017. Disponível em: https://jissn.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12970-017-0173-z

    [3] Candow, D. G., et al. Suplementação de creatina e treinamento de força em idosos: uma revisão sistemática. 2025. Disponível em: https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=6722983

  • Consultórios de luxo e fraudes de reembolso: o lado sombrio da nova dermatologia

    Consultórios de luxo e fraudes de reembolso: o lado sombrio da nova dermatologia

    Existe um momento, dizem os neurologistas, em que o cérebro decide que a dor já foi longe o suficiente. Não é cura. É adaptação. E essa diferença — invisível nos exames, palpável em quem vive — é o que nos separa de uma medicina que cura para uma que apenas adorna. Ou pior, que explora. Caminho por um consultório no interior de São Paulo, o cheiro de lavanda artificial misturado ao de antisséptico, e me pergunto: a quem serve tanto luxo?

    Não se trata de inveja, mas de uma inquietação que se aninha na garganta. O dermatologista, jovem, talvez nem dez anos de formado, ostenta um espaço que faria inveja a cirurgiões plásticos com décadas de bisturi. Uma opulência que contrasta com a realidade da saúde pública e, por vezes, com a própria remuneração média da categoria. Dados recentes apontam que um dermatologista no Brasil pode ter uma média salarial que varia de R$ 7.660 a R$ 12.177 mensais, com especialistas em clínicas maiores alcançando entre R$ 20.000 e R$ 60.000. Valores expressivos, sim, mas que dificilmente justificam a arquitetura de um templo ao botox e ao preenchimento, onde cada procedimento pode custar entre R$ 1.500 e R$ 5.000, ou mais.

    O Brasil, afinal, é o segundo maior mercado de estética do mundo, um setor que movimenta bilhões e cresce a taxas anuais de 7% a 14%. Não há nada de errado em buscar o bem-estar, em suavizar as marcas do tempo ou em corrigir o que nos incomoda. A questão reside na mercantilização da pele, na transformação da saúde em um produto de luxo, acessível apenas a quem pode pagar. E, para quem não pode, surge a sombra do “reembolso assistido”.

    Essa tática, que se disfarça de facilidade, é um abismo ético. A clínica oferece-se para cuidar de todo o processo de reembolso junto ao plano de saúde, pedindo, em troca, o login e a senha do paciente. Em muitos casos, o paciente é “isento” do pagamento inicial, acreditando que está recebendo um benefício. Mas o que se esconde por trás dessa cortina de fumaça é uma fraude. As clínicas emitem notas fiscais com valores inflados ou fracionados, buscando maximizar o retorno financeiro. O paciente, sem saber, torna-se cúmplice de uma ilegalidade.

    As consequências são brutais e se aprofundam. Planos de saúde, como Bradesco, SulAmérica e Amil, estão endurecendo as regras, exigindo comprovantes de pagamento bancário (TED/Pix) e, pior, cancelando contratos de segurados envolvidos. O Tribunal de Justiça de São Paulo tem proferido decisões duras, considerando nulos os contratos de reembolso assistido. Mas a punição vai além: operadoras estão bloqueando e excluindo vitaliciamente beneficiários e seus familiares em casos comprovados de fraude. Empresas contratantes, ao serem notificadas sobre fraudes de seus funcionários, têm aplicado demissões por justa causa, transformando a busca por um atalho em um drama pessoal e profissional.

    Para os médicos e clínicas, os riscos são igualmente severos. A prática de solicitar reembolso sem o desembolso efetivo do paciente pode ser enquadrada como estelionato ou fraude, com implicações criminais. Contratos de cessão de direitos de reembolso são declarados nulos pela justiça, deixando clínicas desamparadas juridicamente. Além do dano à reputação, há a possibilidade de processos éticos no CRM e ações criminais. O setor de saúde suplementar, que perdeu entre R$ 30 e R$ 34 bilhões em fraudes e desperdícios em 2023, está investindo pesado em tecnologia – reconhecimento facial, auditorias rigorosas e cruzamento de dados eletrônicos – para identificar notas fiscais infladas ou fracionadas.

    É a pele que sangra, não de um corte, mas de uma ferida na confiança. A medicina, que deveria ser um porto seguro, transforma-se em um campo minado de interesses. E nós, os pacientes, os cidadãos, os corpos que habitam essa informação, somos deixados com a pergunta suspensa no ar: até onde vai a busca pela perfeição, quando ela nos custa a própria dignidade?

  • O segredo da inteligência humana pode estar em nosso intestino

    O segredo da inteligência humana pode estar em nosso intestino

    Uma nova descoberta revela que nossos micróbios funcionaram como “baterias extras” na evolução. Entenda como essa aliança oculta moldou quem somos e o que ela diz sobre o futuro da saúde mental.

    O cérebro humano é, talvez, o maior enigma da biologia. Ele é desproporcionalmente grande e gasta uma quantidade absurda de energia para funcionar. Durante décadas, a ciência buscou explicar como conseguimos “pagar a conta” biológica para sustentar uma mente tão poderosa. A resposta? Ela pode não estar na nossa cabeça, mas na nossa barriga.

    Uma nova fronteira de pesquisa sugere que a chave para a nossa inteligência reside no ecossistema complexo do nosso microbioma intestinal.

    A tese revolucionária que emerge de estudos recentes da Northwestern University é clara: nossos micróbios não foram apenas passageiros na evolução. Eles foram co-pilotos ativos que ajudaram a construir a arquitetura da nossa mente, fornecendo a energia necessária para alimentar um cérebro faminto.

    O Cérebro Custa Caro: O Grande Dilema da Energia

    Para a evolução, o cérebro humano é um “luxo” metabólico. Embora ocupe pouco espaço no corpo, ele consome uma fatia gigante da nossa energia diária. A grande pergunta dos antropólogos sempre foi: de onde veio o “combustível extra” para permitir que os humanos desenvolvessem um cérebro tão maior que o de outros primatas?

    É aqui que entra a hipótese audaciosa: e se a solução para esse problema energético estivesse terceirizada? Os cientistas acreditam que nossa microbiota evoluiu para funcionar como uma usina de energia, processando alimentos e fornecendo os recursos que nosso corpo sozinho não conseguiria obter.

    Transplante de Micróbios: O Experimento que Mudou Tudo

    Para provar que isso não é apenas teoria, a equipe da antropóloga biológica Katie Amato realizou um experimento fascinante. A ideia era ver se os micróbios poderiam, literalmente, reconfigurar um cérebro.

    O procedimento foi engenhoso:

    • Os pesquisadores pegaram micróbios intestinais de humanos (cérebros grandes) e de macacos (cérebros menores).
    • Esses micróbios foram transplantados para camundongos criados em ambiente estéril (sem bactérias próprias).
    • Após oito semanas, eles analisaram o que aconteceu no cérebro desses roedores.

    O resultado foi impressionante: o intestino começou a “conversar” com o cérebro. Os camundongos que receberam micróbios humanos começaram a ter padrões cerebrais semelhantes aos dos humanos. Como disse a pesquisadora Amato: “Fomos capazes de fazer com que os cérebros dos camundongos se parecessem com os cérebros dos primatas reais de onde os micróbios vieram.”

    Mais que Passageiros: Nossos Micróbios são Arquitetos da Mente

    O estudo revelou que as bactérias intestinais funcionam como interruptores, ligando e desligando genes dentro do cérebro. Os animais que receberam a microbiota humana tiveram um aumento de atividade em duas áreas cruciais:

    1. Produção de Energia: O metabolismo acelerou para sustentar maior atividade.
    2. Plasticidade Sináptica: A capacidade do cérebro de aprender, adaptar-se e formar memórias foi ampliada.

    Isso sugere que nossa inteligência não é fruto apenas do nosso DNA humano, mas de uma parceria antiga com nossas bactérias. Elas forneceram o suporte energético e os sinais químicos para que pudéssemos desenvolver a linguagem, a cultura e a complexidade humana.

    Quando a Conexão Falha: O Elo com a Saúde Mental

    Mas a pesquisa trouxe um alerta importante para os dias de hoje. Ao transplantar micróbios de primatas de cérebro pequeno para os camundongos, os cientistas notaram algo perturbador.

    Os cérebros desses camundongos começaram a apresentar padrões genéticos associados a transtornos humanos como TDAH, esquizofrenia, transtorno bipolar e autismo.

    Isso reforça a teoria do “desajuste evolutivo”. Se o nosso cérebro humano, que espera receber sinais de um microbioma saudável e específico, for exposto aos micróbios “errados” (devido a dieta pobre, antibióticos ou estilo de vida), o desenvolvimento neural pode ser prejudicado. É a primeira vez que se prova uma relação de causa e efeito direta: mude os micróbios, e você muda a estrutura de funcionamento do cérebro.

    Redefinindo Quem Somos

    Esta descoberta nos obriga a repensar o conceito de “eu”. Não somos indivíduos isolados; somos um ecossistema ambulante.

    Para a medicina, isso abre portas para tratamentos que visam o intestino para curar a mente. Para nós, fica a reflexão: cuidar da nossa alimentação e da nossa saúde intestinal não é apenas uma questão de digestão — é uma questão de preservar a própria essência da nossa inteligência e saúde mental.

  • Mounjaro no cérebro: O efeito ‘silenciador’ que desliga a fome e o alerta que os cientistas descobriram

    Mounjaro no cérebro: O efeito ‘silenciador’ que desliga a fome e o alerta que os cientistas descobriram

    Pesquisa inédita com implantes cerebrais revelou, em tempo real, como o Mounjaro atua para calar o “ruído da comida”, mas trouxe à tona uma limitação surpreendente sobre a duração desse efeito.

    A fome, para muitos, vai além do estômago: é um eco persistente na mente, conhecido como fome mental. Essa condição afeta até 60% das pessoas com obesidade, levando a pensamentos obsessivos sobre comida, angústia e comportamentos compulsivos. Recentemente, o medicamento tirzepatida, comercializado como Mounjaro e Zepbound, despontou não só como tratamento para diabetes e obesidade, mas também como uma chave para entender e silenciar esse ruído mental diretamente no cérebro.

    O que é Fome Mental? 

    A fome mental transcende a necessidade fisiológica de se alimentar. Ela aparece como pensamentos intrusivos e recorrentes sobre comida que dominam a atenção, causando sofrimento e levando a padrões alimentares compulsivos. Nesse contexto, a pessoa sente que perdeu o controle sobre o que e o quanto come, tornando o processo de emagrecimento ainda mais difícil. 

    O Centro de Recompensa Cerebral e a Compulsão Alimentar 

    No epicentro dessa batalha está o núcleo accumbens (NAc), conhecido como o “centro de recompensa” do cérebro. Essa área é responsável por funções como motivação, busca por prazer e controle de impulsos. Estudos demonstram que, em indivíduos com obesidade e transtorno de compulsão alimentar (TCA), os sinais neurais no núcleo accumbens ficam desregulados, alimentando desejos incontroláveis por comida. Entender esse mecanismo abriu novas possibilidades para pesquisas e tratamentos. 

    O Caso da “Participante 3”: Uma Visão Direta da Mente 

    Um estudo inovador focou na “Participante 3”, uma mulher de 60 anos com obesidade severa, resistente a múltiplos tratamentos, incluindo cirurgia bariátrica, terapia comportamental e medicamentos da classe GLP-1. O principal desafio era a fome mental persistente, marcada por pensamentos fixos em alimentos específicos, como cupcakes, sanduíches de fast-food e batatas fritas, que levavam a pedidos frequentes de delivery e petiscos ao longo do dia. 

    A pesquisa ganhou um diferencial: a participante fazia parte de um ensaio clínico em que eletrodos foram implantados em seu cérebro para detectar e tentar bloquear sinais de compulsão alimentar. Simultaneamente, ela foi prescrita com tirzepatida para tratar diabetes tipo 2. Essa combinação permitiu aos cientistas observar, em tempo real, como o medicamento afetava os circuitos cerebrais ligados aos desejos compulsivos, uma oportunidade única e fundamental para a ciência. 

    O Silêncio Temporário: Efeito do Mounjaro no Cérebro 

    Ao atingir a dose máxima de tirzepatida, a Participante 3 relatou um fenômeno surpreendente: o desaparecimento completo dos pensamentos obsessivos sobre comida. O “ruído” mental que a atormentava simplesmente cessou. Os dados dos eletrodos mostraram que a atividade no núcleo accumbens ficou “quieta”, indicando que os sinais neurais associados ao desejo estavam suprimidos. 

    Essa evidência reforçou que o Mounjaro pode agir diretamente no centro de recompensa cerebral, silenciando temporariamente os circuitos da compulsão alimentar. O medicamento não estava apenas influenciando o corpo, mas também a mente, e essa descoberta abriu uma nova perspectiva sobre o tratamento desses distúrbios. 

    O Retorno da Fome Mental: Limites do Mounjaro 

    Após cerca de cinco meses de “silêncio mental”, a fome obsessiva retornou à vida da Participante 3. Os eletrodos registraram novamente a atividade intensa no núcleo accumbens, semelhante ao período anterior ao uso do medicamento. Essa reviravolta revelou que o efeito da tirzepatida não era permanente: os padrões cerebrais da compulsão reapareceram, indicando que o Mounjaro, na fórmula atual, não altera de forma duradoura os circuitos neurais do desejo. 

    Segundo especialistas envolvidos no estudo, o medicamento pode ser útil para gerenciar a preocupação e a compulsão alimentar, mas ainda não representa uma solução definitiva. O desafio agora é transformar essas descobertas em tratamentos mais duradouros e direcionados. 

    O Futuro do Tratamento da Compulsão Alimentar 

    A grande lição do estudo é clara: a tirzepatida oferece uma janela única para entender como os circuitos de recompensa cerebral podem ser modulados para silenciar a fome mental e a compulsão alimentar. No entanto, seu efeito é temporário, e ainda precisamos de avanços para garantir tratamentos que atuem de forma sustentável sobre esses processos. 

    • Mecanismo esclarecido: O Mounjaro pode suprimir temporariamente a atividade do núcleo accumbens, reduzindo a fome mental. 
    • Efeito não sustentado: O silêncio mental dura alguns meses, mas não é permanente, os sinais de desejo voltam a aparecer. 
    • Necessidade de inovação: É essencial desenvolver medicamentos e abordagens que atuem de forma mais profunda e duradoura nos circuitos cerebrais da compulsão alimentar. 

    Embora o Mounjaro não seja uma solução milagrosa para todos os aspectos da obesidade e dos distúrbios alimentares, o caso da Participante 3 abriu uma nova porta para compreender e, futuramente, tratar melhor a complexa relação entre cérebro e comida. 

  • Café: A descoberta que pode reduzir a idade biológica em 5 anos e revolucionar a saúde mental

    Café: A descoberta que pode reduzir a idade biológica em 5 anos e revolucionar a saúde mental

    Nova pesquisa revela que beber de 3 a 4 xícaras de café por dia protege o DNA e desacelera o envelhecimento celular, desafiando as diretrizes atuais de saúde pública para tratamentos psiquiátricos.

    O café é uma constante no tecido da vida cotidiana, um ritual matinal para milhões. No entanto, para além do seu papel familiar, esta bebida onipresente pode conter implicações científicas profundas para a saúde de uma das nossas populações mais vulneráveis: indivíduos com transtornos mentais graves, que enfrentam não apenas desafios psiquiátricos, mas também um envelhecimento biológico acelerado. É por isso que as descobertas de um estudo recente, que associam o consumo moderado de café a um envelhecimento celular mais lento neste grupo, exigem uma reavaliação crítica das políticas de saúde pública. O foco numa intervenção tão acessível e de baixo custo representa uma área de investigação inovadora para a equidade na saúde. Embora promissoras, estas descobertas devem ser interpretadas com a devida cautela, impulsionando um diálogo científico rigoroso e mais pesquisas, em vez de recomendações clínicas precipitadas.

    1. A Descoberta Central: Mais do que Apenas uma Bebida Energética

    No campo da saúde pública, a busca por intervenções de baixo custo, alta acessibilidade e ampla aceitação cultural é um objetivo estratégico, especialmente para mitigar as disparidades de saúde em populações com transtornos mentais graves. É neste contexto que um estudo sobre um hábito tão comum como beber café se torna particularmente relevante.

    Uma pesquisa recente do estudo norueguês Thematically Organised Psychosis (TOP), publicada na revista BMJ Mental Health, revelou uma associação notável: o consumo de três a quatro xícaras de café por dia foi associado a telômeros mais longos nos participantes. Em termos de impacto biológico, este achado é significativo. Os pesquisadores estimam que o efeito mais pronunciado — observado em participantes que consumiam quatro xícaras por dia — correspondia a um comprimento de telômeros alinhado com uma idade biológica aproximadamente cinco anos mais jovem em comparação com os indivíduos que não consomem café.

    É crucial enfatizar que este efeito foi observado especificamente na população do estudo: adultos diagnosticados com esquizofrenia e transtornos afetivos, como transtorno bipolar e depressão maior com psicose. Esta descoberta intrigante nos obriga a olhar para além da cafeína e a investigar o que, a nível celular, poderia estar por trás desta associação.

    2. O Mecanismo Biológico: Desvendando a Relação entre Café e Telômeros

    Para que uma observação científica passe do campo da correlação para o da intervenção potencial, é fundamental compreender os mecanismos biológicos subjacentes. No centro desta descoberta estão os telômeros, estruturas que os pesquisadores descrevem de forma acessível como funcionando “como as pontas de plástico nos cadarços que evitam o desfiamento”. Localizados nas extremidades dos nossos cromossomos, eles protegem o nosso material genético.

    Embora os telômeros encurtem naturalmente à medida que envelhecemos, as evidências sugerem que este processo pode ser acelerado em pessoas com condições psiquiátricas graves. Do ponto de vista da psiquiatria nutricional, a hipótese levantada pelos pesquisadores para o efeito protetor do café é particularmente convincente: o café é uma fonte rica em compostos antioxidantes e anti-inflamatórios potentes. Como os próprios autores destacam, os telômeros são “altamente sensíveis tanto ao estresse oxidativo quanto à inflamação”. Sugere-se que o café mitigue precisamente os fatores que contribuem para o seu encurtamento precoce. Esta explicação biológica também torna lógico que exista uma dose ótima, para além da qual os efeitos benéficos dos antioxidantes possam ser superados por outros fatores.

    3. Uma Dose de Cautela: A Curva em ‘J’ e as Limitações do Estudo

    Uma análise científica robusta exige um reconhecimento honesto não apenas dos benefícios potenciais, mas também dos riscos e das limitações da pesquisa. O estudo revelou o que os pesquisadores descrevem como uma “curva em J” nos resultados. O benefício associado ao consumo de três a quatro xícaras de café não foi detectado no grupo que consumia cinco ou mais xícaras. Pelo contrário, os autores alertam que o consumo excessivo pode “contribuir para o dano celular”, potencialmente através da formação de espécies reativas de oxigênio, criando um efeito pró-oxidante que contraria o benefício observado em doses moderadas.

    Esta descoberta alinha-se perfeitamente com as diretrizes de saúde existentes. O limite de até quatro xícaras (aproximadamente 400 mg de cafeína) é consistente com as recomendações de agências como o NHS do Reino Unido e a FDA dos EUA. Além disso, os próprios autores apontam para as limitações críticas do seu trabalho:

    • Natureza Observacional: O estudo identifica uma associação, mas não pode estabelecer uma relação direta de causa e efeito.

    • Fatores Ausentes: Faltaram detalhes cruciais, como o tipo de café, o teor exato de cafeína, o horário de consumo e a ingestão de outras bebidas com cafeína.

    • Fatores de Confusão: Um dado de extrema relevância é que 77% dos participantes eram fumantes. O tabagismo acelera significativamente o metabolismo da cafeína, o que significa que a “dose” biológica efetiva de café nesta população pode ser muito diferente da de não fumantes. Embora os pesquisadores tenham ajustado para o uso de tabaco, esta variável de confusão reforça a necessidade de pesquisas mais controladas.

    Apesar destas limitações, as descobertas são demasiado importantes para serem ignoradas e possuem implicações significativas para a política de saúde pública.

    4. Da Pesquisa à Prática: Implicações para a Saúde Pública e Diretrizes Futuras

    O verdadeiro valor de um estudo como este reside na sua capacidade de traduzir achados acadêmicos em um chamado à ação pragmático para formuladores de políticas de saúde e profissionais clínicos. O objetivo não é prescrever café como um tratamento, mas sim usar estas descobertas para integrar considerações dietéticas simples no cuidado da saúde mental, com o objetivo final de reduzir a significativa lacuna de morbidade e mortalidade que afeta esta população.

    Estes resultados desafiam as diretrizes dietéticas tradicionais para populações com doenças mentais, que frequentemente se concentram em restrições. Este estudo exige uma mudança de paradigma: em vez de apenas focar no que evitar, devemos investigar recomendações positivas, de baixo custo e culturalmente integradas. Para que isso aconteça de forma responsável, é imperativo um chamado explícito por mais pesquisas:

    1. Ensaios Controlados: São necessários para determinar se a relação entre o consumo de café e o comprimento dos telômeros é causal.

    2. Análise de Componentes: Estudos futuros devem procurar isolar se os efeitos observados provêm da cafeína ou de outros compostos antioxidantes presentes no café, como os polifenóis.

    3. Estudos de Dose-Resposta: É crucial definir com mais precisão a janela terapêutica ideal de consumo, especialmente em populações de não fumantes, para confirmar a curva em “J”.

    A saúde mental não pode ser dissociada da saúde física; a abordagem deve ser holística.

    5. Conclusão: Um Convite à Ação Holística

    A associação entre o consumo moderado de café e um envelhecimento celular aparentemente mais lento em pacientes com transtornos mentais graves é uma descoberta promissora que merece a nossa atenção séria. Ela reforça a mensagem crítica da moderação e a necessidade de uma abordagem rigorosamente baseada em evidências, advertindo-nos contra conclusões simplistas.

    Em última análise, ignorar intervenções simples, acessíveis e de baixo custo, como a dieta, no cuidado da saúde mental é uma falha sistêmica. Este estudo sobre o café deve ser visto como uma evidência poderosa que exige uma abordagem mais integrada e de pessoa integral na política e na prática clínica. É um lembrete de que a saúde é influenciada não apenas por medicamentos e terapia, mas também pelos rituais diários que compõem as nossas vidas, e reconhecer isso é um imperativo científico e humano para o cuidado de populações vulneráveis.

  • Frutose em bebidas pode ativar inflamação no corpo em poucas horas

    Frutose em bebidas pode ativar inflamação no corpo em poucas horas

    Nova pesquisa mostra que a frutose prepara as células de defesa para reagirem de forma exagerada de forma rápida, silenciosa e muito mais perigosa do que imaginamos.

    Quando falamos sobre açúcar, costumamos pensar em efeitos de longo prazo, como ganho de peso ou risco de doenças metabólicas. Porém, um estudo recente da Universidade de Viena trouxe um dado novo sobre a frutose, presente em bebidas adoçadas e diversos alimentos industrializados: ela pode influenciar a forma como nosso corpo reage a ameaças externas logo após o consumo.

    Mas, como reforçam os próprios cientistas, essa descoberta não significa que a frutose cause danos diretos por si só e sim que há indícios de que ela possa deixar células de defesa temporariamente mais sensíveis.
    Trata-se de um resultado inicial, que ainda precisa ser ampliado e testado em diferentes grupos.


    1. A frutose deixa células de defesa mais sensíveis a toxinas

    O estudo observou que, depois de ingerir bebidas adoçadas com frutose, um tipo de célula de defesa — os monócitos — passou a reagir de forma mais intensa a toxinas produzidas por bactérias.

    Essa reação exagerada não significa que o corpo ficou mais forte; ela representa uma sensibilidade maior, que pode favorecer respostas inflamatórias. Os cientistas identificaram que essas células liberaram mais substâncias inflamatórias do que o esperado após o consumo de frutose.

    Esse é um comportamento relevante para a pesquisa imunológica, mas ainda não está claro como ele se traduz na saúde a longo prazo.


    2. O efeito é específico da frutose, não de todos os açúcares

    Um ponto importante do estudo é a comparação entre diferentes açúcares.
    Quando os participantes consumiram glicose, as células de defesa não apresentaram a mesma sensibilidade exagerada.

    A frutose, por outro lado, aumentou a quantidade de sensores que reconhecem toxinas bacterianas. Com mais sensores, as células responderam mais rápido e com mais intensidade, um achado que sugere um mecanismo específico desse tipo de açúcar.

    Ainda assim, isso não indica um risco imediato para a população. O estudo descreve um fenômeno biológico que precisa ser investigado em diferentes contextos, doses e perfis de saúde.


    3. A reação acontece rápido, mas seu significado ainda é desconhecido

    O estudo também chamou atenção para a velocidade do efeito: a mudança no comportamento das células foi observada após um consumo curto e concentrado de frutose, em pessoas saudáveis.

    Segundo a pesquisadora Ina Bergheim:

    “Mesmo um consumo curto e elevado de frutose em pessoas saudáveis já influencia o sistema imunológico e aumenta a inflamação.”

    No entanto, os próprios autores destacam que é cedo para saber como esse efeito se manifesta no dia a dia. Os testes foram feitos em condições controladas, com quantidades específicas de açúcar, e mediram reações celulares, não doenças ou sintomas.

    Ainda não está claro se essa resposta rápida se repete em diferentes padrões alimentares, em outras populações ou em situações reais.


    Resultados promissores, mas longe de uma resposta definitiva

    A pesquisa mostrou um possível efeito da frutose no sistema imunológico, e que ela pode aumentar temporariamente a sensibilidade de células de defesa. É um achado relevante para a ciência, especialmente para quem investiga inflamação, metabolismo e resposta imune.

    Mas os cientistas são claros:
    os resultados são iniciais e não devem ser interpretados como um alerta ou como uma recomendação imediata para mudanças de comportamento.

    Ainda não sabemos:

    • se o efeito acontece com diferentes quantidades de frutose,
    • quanto tempo ele dura,
    • se ele impacta a saúde a longo prazo,
    • ou como ele se manifesta em grupos com doenças pré-existentes.

    Por isso, o próprio grupo de pesquisa defende que sejam realizados estudos maiores, de longo prazo e com populações variadas.

    No momento, o que temos é uma pista importante e não uma conclusão fechada.

  • Cientistas descobrem que a ansiedade pode vir do sistema imunológico do cérebro — não dos neurônios

    Cientistas descobrem que a ansiedade pode vir do sistema imunológico do cérebro — não dos neurônios

    Nova pesquisa revela que a ansiedade pode ser controlada por células imunológicas do cérebro, mudando a compreensão sobre a origem da ansiedade.

    A ansiedade, que atinge milhões de pessoas no mundo, pode não nascer dos neurônios como a ciência acreditou por décadas. Uma descoberta da University of Utah Health aponta para um novo protagonista no controle desse estado emocional: as células do sistema imunológico do cérebro, conhecidas como micróglias. A revelação abre uma nova fronteira nos estudos de saúde mental e pode transformar o futuro dos tratamentos.

    O Sistema Imunológico do Cérebro Entra em Cena

    Em vez de focar nos neurônios, os pesquisadores voltaram os holofotes para a micróglia, células responsáveis por defender o cérebro. O estudo mostra que essas células imunológicas têm impacto direto no comportamento ansioso, indicando que o equilíbrio do sistema imunológico cerebral pode ser tão importante quanto a química neural.

    Segundo Donn Van Deren, PhD, “quando o sistema imunológico do cérebro tem um defeito e não é saudável, pode resultar em distúrbios neuropsiquiátricos muito específicos”.

    Cérebro com Acelerador e Freio: Como a Ansiedade É Regulada

    Os cientistas descobriram dois tipos de micróglia que atuam como forças opostas:

    Micróglia não-Hoxb8 — o acelerador da ansiedade

    Quando presentes sozinhas, aumentam comportamentos ansiosos e compulsivos, como evitar espaços abertos e se limpar repetidamente.

    Micróglia Hoxb8 — o freio da ansiedade

    Neutralizam o efeito do “acelerador”, mantendo o comportamento em equilíbrio.

    Mario Capecchi, PhD, explica: “essas duas populações de micróglia têm papéis opostos. Juntas, definem os níveis certos de ansiedade”.

    A descoberta veio após testes em que bloquear todas as micróglias não alterou o comportamento dos animais. Isso sugeriu que grupos opostos se anulavam — e era exatamente o que acontecia.

    Impacto Para os Tratamentos: Uma Nova Rota Fora dos Neurônios

    A descoberta abre caminho para terapias que não se concentram apenas nos neurônios e neurotransmissores, como a maioria dos medicamentos atuais. Ela sugere que modular o sistema imunológico do cérebro pode ser a chave para controlar a ansiedade, ampliando as possibilidades de tratamento no futuro.

    Embora ainda distante da aplicação clínica, o estudo indica que humanos também possuem essas duas populações de micróglia, o que torna a pesquisa altamente promissora.

    Uma Nova Fronteira da Saúde Mental

    A ideia de que nossas emoções podem ser influenciadas por células imunológicas muda completamente o mapa da saúde mental. Para quem convive com ansiedade, essa descoberta representa mais do que um avanço científico: é uma nova esperança. Ela inaugura a era da neuroimunologia, onde mente e sistema imunológico conversam de forma muito mais profunda do que se imaginava.

    E fica um questionamento que provoca e instiga:
    se o sistema imunológico do cérebro tem tanto poder sobre nossas emoções, que outros segredos ainda pode guardar?

  • Creme dental feito de cabelo e novo remédio japonês prometem o fim das obturações

    Creme dental feito de cabelo e novo remédio japonês prometem o fim das obturações

    Pesquisas no Japão e no Reino Unido indicam que o futuro da odontologia pode mudar radicalmente: de obturações e implantes para dentes que se regeneram sozinhos com um creme dental feito de cabelo.

    Dentistas podem estar prestes a se despedir do “motorzinho”

    O temido diagnóstico de uma nova cárie pode estar com os dias contados. Pesquisadores em vários países estão desenvolvendo tecnologias que prometem fazer crescer dentes inteiros e regenerar o esmalte naturalmente, o que pode transformar completamente o tratamento odontológico nas próximas décadas.

    Os avanços vêm de duas frentes principais: um medicamento japonês que estimula o crescimento de novos dentes e uma tecnologia britânica que usa proteínas de cabelo e lã para reconstruir o esmalte dental. Ambos os estudos sugerem que o futuro dos consultórios pode ser menos sobre perfurações e obturações — e mais sobre regeneração biológica.

    Por que o esmalte não se regenera naturalmente

    O esmalte dos dentes é o tecido mais duro do corpo humano, composto quase inteiramente por minerais, principalmente hidroxiapatita — um cristal de fosfato de cálcio. Apesar de sua resistência, ele tem uma limitação: não se regenera.

    Isso acontece porque as células que o formam, chamadas ameloblastos, desaparecem quando o dente termina de se desenvolver. Sem essas células, o corpo não tem como reparar o esmalte perdido por desgaste, cárie ou erosão.

    Segundo o pesquisador Dr. Sherif Elsharkawy, do King’s College London, “ao contrário dos ossos e dos cabelos, o esmalte dental não volta a crescer. Uma vez perdido, está perdido para sempre”.

    Medicamento japonês promete fazer crescer novos dentes

    Pesquisadores da Universidade de Kyoto, no Japão, estão testando um medicamento capaz de estimular o crescimento de dentes completamente novos, uma conquista inédita na medicina moderna.

    O segredo está em bloquear uma proteína chamada USAG-1, que normalmente impede o desenvolvimento do que seria uma “terceira dentição” — já que os humanos têm apenas duas: os dentes de leite e os permanentes.

    Nos testes realizados em camundongos e furões, bloquear a USAG-1 fez nascer dentes perfeitamente formados. Os ensaios clínicos com humanos começaram em setembro de 2024 e devem ser concluídos em 2025.

    A expectativa é que, se o tratamento se mostrar seguro e eficaz, ele chegue ao mercado japonês até 2030, tornando implantes e dentaduras possivelmente obsoletos.

    Cabelos e dentes: a aposta britânica na queratina

    Enquanto isso, pesquisadores do King’s College London estão desenvolvendo uma forma de reconstruir o esmalte dental com queratina — a mesma proteína presente em cabelos, pele e lã de ovelha.

    Quando aplicada aos dentes, a substância reage com o cálcio e o fosfato da saliva, formando uma camada cristalina que imita perfeitamente o esmalte natural, fortalecendo a estrutura e reduzindo a sensibilidade.

    Além da eficácia, a tecnologia se destaca por ser sustentável: utiliza resíduos biológicos e elimina o uso de resinas plásticas tóxicas comuns em restaurações dentárias.

    Os primeiros cremes dentais e enxaguantes bucais com queratina podem chegar ao mercado dentro de dois a três anos, segundo os pesquisadores.

    Hidroxiapatita: o futuro que já está no seu banheiro

    Enquanto os avanços mais radicais ainda passam por testes, um componente regenerativo já está disponível: a hidroxiapatita (HAP).

    Esse mineral, que representa 97% do esmalte natural dos dentes, é usado em cremes dentais capazes de preencher microfissuras e fortalecer o esmalte de fora para dentro.

    Estudos mostram que os produtos com hidroxiapatita são tão eficazes quanto o flúor na prevenção de cáries — e ainda proporcionam alívio rápido da sensibilidade, sem riscos tóxicos.

    A substância é considerada por especialistas o primeiro passo prático da odontologia regenerativa, já acessível ao consumidor.

    Odontologia entra na era da regeneração biológica

    Por mais de um século, a odontologia foi marcada por métodos mecânicos: perfurar, limpar e preencher. Agora, a ciência está abrindo caminho para uma abordagem biológica — em que o próprio corpo é estimulado a curar os dentes naturalmente.

    Com medicamentos que prometem fazer crescer novos dentes e tecnologias que restauram o esmalte com proteínas e minerais, o dentista do futuro pode trocar a broca por uma seringa e uma escova especial.

    E talvez, em alguns anos, o barulho do motorzinho que tantos temem seja apenas uma lembrança — ou uma peça de museu.

  • Anvisa aprova uso do Mounjaro para emagrecimento

    Anvisa aprova uso do Mounjaro para emagrecimento

    Medicamento, antes restrito ao diabetes tipo 2, ganha luz verde para auxiliar na perda de peso; custo e necessidade de mudança de hábitos são pontos de atenção.

    A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) acaba de dar um passo significativo na luta contra a obesidade no Brasil ao aprovar o uso do medicamento Mounjaro (princípio ativo tirzepatida) para auxiliar na perda de peso. A decisão amplia a aplicação do fármaco, que já era autorizado no país desde 2023 exclusivamente para o tratamento do diabetes tipo 2.

    A partir de agora, o Mounjaro poderá ser prescrito para indivíduos sem diabetes, desde que apresentem um Índice de Massa Corpórea (IMC) acima de 30 kg/m² (obesidade) ou acima de 27 kg/m² (sobrepeso), este último em conjunto com alguma comorbidade associada, como hipertensão ou colesterol alto.

    Inovação no Mecanismo de Ação

    O que torna o Mounjaro particularmente relevante é seu mecanismo de ação inovador. Segundo Alexandre Hohl, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), a tirzepatida atua através de um “duplo mecanismo hormonal”, que envolve as vias GLP-1 e GIP. Essa abordagem combinada é considerada um avanço em relação a outros medicamentos disponíveis para emagrecimento, podendo oferecer uma eficácia superior no controle do apetite e da regulação metabólica.

    Custos e Condições Essenciais para o Tratamento

    O medicamento começou a ser comercializado no início de junho de 2025. No entanto, o custo mensal do tratamento pode representar uma barreira de acesso para muitos brasileiros, variando entre R$ 1,4 mil e R$ 2,3 mil, dependendo da dose prescrita.

    Especialistas alertam que o Mounjaro não é uma solução mágica. Fábio Moura, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, ressalta que o uso do medicamento deve ser obrigatoriamente combinado com mudanças no estilo de vida, incluindo uma alimentação saudável e a prática regular de exercícios físicos. Sem essa integração, os resultados esperados podem não ser alcançados ou mantidos a longo prazo.

    É importante frisar que o Mounjaro não foi testado em gestantes ou lactantes, portanto, seu uso nessas condições é contraindicado.

    Impacto na Saúde Pública

    A obesidade é uma epidemia global e um grave problema de saúde pública no Brasil, associada a diversas doenças crônicas como diabetes, doenças cardíacas e certos tipos de câncer. A aprovação de uma nova e potente ferramenta terapêutica como o Mounjaro representa um passo à frente no manejo dessa complexa condição. No entanto, o debate sobre o acesso equitativo a tratamentos inovadores, especialmente em face de custos elevados, continuará sendo um tema crucial para as políticas de saúde.

    Fonte: Agência Brasil


    A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) acaba de dar um passo significativo na luta contra a obesidade no Brasil ao aprovar o uso do medicamento Mounjaro (princípio ativo tirzepatida) para auxiliar na perda de peso. A decisão amplia a aplicação do fármaco, que já era autorizado no país desde 2023 exclusivamente para o tratamento do diabetes tipo 2.

    A partir de agora, o Mounjaro poderá ser prescrito para indivíduos sem diabetes, desde que apresentem um Índice de Massa Corpórea (IMC) acima de 30 kg/m² (obesidade) ou acima de 27 kg/m² (sobrepeso), este último em conjunto com alguma comorbidade associada, como hipertensão ou colesterol alto.

    Inovação no Mecanismo de Ação

    O que torna o Mounjaro particularmente relevante é seu mecanismo de ação inovador. Segundo Alexandre Hohl, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), a tirzepatida atua através de um “duplo mecanismo hormonal”, que envolve as vias GLP-1 e GIP. Essa abordagem combinada é considerada um avanço em relação a outros medicamentos disponíveis para emagrecimento, podendo oferecer uma eficácia superior no controle do apetite e da regulação metabólica.

    Custos e Condições Essenciais para o Tratamento

    O medicamento começou a ser comercializado no início de junho de 2025. No entanto, o custo mensal do tratamento pode representar uma barreira de acesso para muitos brasileiros, variando entre R$ 1,4 mil e R$ 2,3 mil, dependendo da dose prescrita.

    Especialistas alertam que o Mounjaro não é uma solução mágica. Fábio Moura, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, ressalta que o uso do medicamento deve ser obrigatoriamente combinado com mudanças no estilo de vida, incluindo uma alimentação saudável e a prática regular de exercícios físicos. Sem essa integração, os resultados esperados podem não ser alcançados ou mantidos a longo prazo.

    É importante frisar que o Mounjaro não foi testado em gestantes ou lactantes, portanto, seu uso nessas condições é contraindicado.

    Impacto na Saúde Pública

    A obesidade é uma epidemia global e um grave problema de saúde pública no Brasil, associada a diversas doenças crônicas como diabetes, doenças cardíacas e certos tipos de câncer. A aprovação de uma nova e potente ferramenta terapêutica como o Mounjaro representa um passo à frente no manejo dessa complexa condição. No entanto, o debate sobre o acesso equitativo a tratamentos inovadores, especialmente em face de custos elevados, continuará sendo um tema crucial para as políticas de saúde.

    Fonte: Agência Brasil


  • Novo remédio pode evitar cirurgia para sinusite crônica e mudar tratamento da doença

    Novo remédio pode evitar cirurgia para sinusite crônica e mudar tratamento da doença

    Estudo mostra que medicamento injetável reduz em até 98% a necessidade de operação para retirada de pólipos nasais; laboratório aguarda aprovação da Anvisa para novo uso no Brasil

    Um novo medicamento chamado tezepelumabe, desenvolvido pela farmacêutica AstraZeneca, demonstrou eficácia significativa no tratamento da rinossinusite crônica com pólipos nasais. Segundo estudo clínico publicado no The New England Journal of Medicine, o remédio reduziu em 98% a necessidade de cirurgia e em 88% o uso de corticoides entre os pacientes analisados.

    A pesquisa foi conduzida com 203 voluntários que sofrem com essa condição inflamatória crônica das vias respiratórias, e representa um avanço no tratamento de uma doença que afeta milhões de pessoas ao redor do mundo. No Brasil, o medicamento já é aprovado para o controle da asma grave, e a fabricante aguarda parecer da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para sua nova indicação.

    O que é a rinossinusite com pólipos?

    A rinossinusite crônica ocorre quando os seios da face e a cavidade nasal permanecem inflamados por mais de 12 semanas, podendo formar pólipos nasais — pequenas protuberâncias benignas que obstruem a passagem de ar, prejudicam o olfato e provocam sintomas persistentes como congestão nasal, dor de cabeça e perda do olfato.

    “Esses pólipos são comuns em pacientes que têm rinite alérgica ou asma mal controlada”, explica o imunologista Pablo Foncesa, professor da Universidade de São Paulo (USP). “Eles surgem justamente pela inflamação contínua da mucosa nasal.”

    Como funciona o novo tratamento?

    O tezepelumabe é um anticorpo monoclonal, tipo de medicamento que atua bloqueando mecanismos específicos do processo inflamatório no corpo. Ele é injetável e deve ser aplicado uma vez a cada quatro semanas.

    Entre os efeitos colaterais mais comuns estão dor de cabeça e sangramento nasal leve, mas o tratamento passou nos testes de segurança realizados durante o estudo clínico.

    Fatores de risco para desenvolver a doença

    Especialistas apontam que a rinossinusite crônica com pólipos é mais comum em pessoas com:

    • Rinite alérgica não tratada
    • Sinusite aguda de repetição
    • Asma grave
    • Alergia a medicamentos como aspirina e anti-inflamatórios (AINEs)

    O que vem a seguir?

    Com os resultados positivos do estudo, o próximo passo é a aprovação da Anvisa para o uso do tezepelumabe no tratamento da rinossinusite crônica no Brasil. Se liberado, o remédio poderá beneficiar pacientes que convivem há anos com os sintomas e que frequentemente precisam de cirurgia para remover os pólipos.

    “Esse tipo de medicamento pode mudar a abordagem terapêutica da doença e evitar intervenções cirúrgicas em boa parte dos casos”, destaca Pablo Fonseca.


    Um novo medicamento chamado tezepelumabe, desenvolvido pela farmacêutica AstraZeneca, demonstrou eficácia significativa no tratamento da rinossinusite crônica com pólipos nasais. Segundo estudo clínico publicado no The New England Journal of Medicine, o remédio reduziu em 98% a necessidade de cirurgia e em 88% o uso de corticoides entre os pacientes analisados.

    A pesquisa foi conduzida com 203 voluntários que sofrem com essa condição inflamatória crônica das vias respiratórias, e representa um avanço no tratamento de uma doença que afeta milhões de pessoas ao redor do mundo. No Brasil, o medicamento já é aprovado para o controle da asma grave, e a fabricante aguarda parecer da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para sua nova indicação.

    O que é a rinossinusite com pólipos?

    A rinossinusite crônica ocorre quando os seios da face e a cavidade nasal permanecem inflamados por mais de 12 semanas, podendo formar pólipos nasais — pequenas protuberâncias benignas que obstruem a passagem de ar, prejudicam o olfato e provocam sintomas persistentes como congestão nasal, dor de cabeça e perda do olfato.

    “Esses pólipos são comuns em pacientes que têm rinite alérgica ou asma mal controlada”, explica o imunologista Pablo Foncesa, professor da Universidade de São Paulo (USP). “Eles surgem justamente pela inflamação contínua da mucosa nasal.”

    Como funciona o novo tratamento?

    O tezepelumabe é um anticorpo monoclonal, tipo de medicamento que atua bloqueando mecanismos específicos do processo inflamatório no corpo. Ele é injetável e deve ser aplicado uma vez a cada quatro semanas.

    Entre os efeitos colaterais mais comuns estão dor de cabeça e sangramento nasal leve, mas o tratamento passou nos testes de segurança realizados durante o estudo clínico.

    Fatores de risco para desenvolver a doença

    Especialistas apontam que a rinossinusite crônica com pólipos é mais comum em pessoas com:

    • Rinite alérgica não tratada
    • Sinusite aguda de repetição
    • Asma grave
    • Alergia a medicamentos como aspirina e anti-inflamatórios (AINEs)

    O que vem a seguir?

    Com os resultados positivos do estudo, o próximo passo é a aprovação da Anvisa para o uso do tezepelumabe no tratamento da rinossinusite crônica no Brasil. Se liberado, o remédio poderá beneficiar pacientes que convivem há anos com os sintomas e que frequentemente precisam de cirurgia para remover os pólipos.

    “Esse tipo de medicamento pode mudar a abordagem terapêutica da doença e evitar intervenções cirúrgicas em boa parte dos casos”, destaca Pablo Fonseca.