Categoria: Especiais

  • Profissão: Gamer | Como é o mercado de trabalho na área de video games?

    Qual jogador de videogame nunca sonhou em fazer parte da produção de um jogo? Compreender o processo de produção de um game e se identificar com alguma área é algo cada vez mais comum entre os jovens. A indústria de jogos eletrônicos movimenta milhões por ano e o mercado de trabalho se expande, contratando profissionais com formação muito específica.

    Algumas das profissões mais comuns na área são ligadas a computação: game designer (criador do projeto inicial do jogo), programador (responsável pelos códigos de programação que fazem o jogo “funcionar”), tester (talvez a mais atraente entre os jovens, é o “gamer profissional” que passará horas jogando em busca de bugs ou falhas), animador (dá vida as cenas e personagens), designer de personagens e cenário (cria os conceitos dos seres e objetos em cena no jogo), level designer (criador dos mapas e fases), modelador 3D e produtor executivo (o coordenador da equipe, responsável pelo projeto).

    Profissionais com formação em diversas outras áreas  também encontram um nicho na indústria de games, que contrata publicitários, produtores, ilustradores, jornalistas, assessores de imprensa, entre muitos outros.

    Raul Tabajara é desenhista desde 1998, fez diversos trabalhos na área de games, e trabalha exclusivamente com jogos desde 2008, adquirindo conhecimentos também em programação.  Ele avalia a empregabilidade do mercado.

    “É um pouco bom, um pouco ruim, um pouco ilusório. É fato que cada vez mais o Brasil cria jogos que estão sendo reconhecidos atualmente. Mas falamos de duas ou três empresas, que não têm espaço pra ter mais gente trabalhando. Assim, quem trabalha lá está feliz, quem não, espera uma vaga ou trabalha em empresas menores, que infelizmente, ainda não tem condições de pagar um salário adequado ao profissional. Por isso o povo de games sempre acaba caindo na (área de) publicidade ou Web”.

    A necessidade de compreender a própria vocação deve ser uma prioridade na busca por formação profissional, segundo Raul.

    “O game é uma união de muitas artes. Escultura, desenho, matemática, programação, música, roteiro… E por isso eu aconselho, sempre, a pessoa se entender primeiro. Onde estão os talentos dela? Qual área dos games será que ela vai se dar melhor? Hoje em dia uma “faculdade de games” vai pincelar todas essas áreas. E no momento que a pessoa entender qual a área dela, ela deve procurar cursos, por fora, pra se especializar naquela área. Não existe alguém que é bom em roteiro, e em modelagem, e em música, e em programação… mas você pode conhecer cada uma dessas e ser realmente bom em algo específico. E ser bom nesse algo significa conhecer para além do game. Por exemplo: Se a pessoa gosta de música, com certeza ela não vai tocar só ‘música de videogame’, ela vai se interessar pelo universo da música como um todo. O programador vai conhecer sistemas e banco de dados, o ilustrador vai conhecer quadrinhos…”

    Raul finaliza com um conselho, que como ele mesmo avalia, parece contraditório.

    “Se você já sabe que gosta de desenho, faça faculdade de desenho, não de games. Eu acredito que games deveria ser uma segunda faculdade, uma certa especialização da arte que você mais gosta”.

    Ou seja, se profissionalizar em uma área com maior campo de mercado, e fazer uma Especialização em games.

  • Profissão: Gamer | Time feminino do Santos eSports comprova avanço das meninas gamers

    O Santos Futebol Clube, consolidado no futebol paulista, retornou ao universo dos esportes eletrônicos com a criação de sua marca própria, o Santos e-Sports, e surpreendeu o público anunciando sua primeira line-up competitiva: uma equipe feminina de CS:GO, visando participar de importantes torneios nacionais e internacionais.

    As atletas que compõem o “e-Santos” são: Lara “goddess” Baceiredo, Izabella ”izaa” Galle, Julia “smile” Junqs, Letícia “Le^” Lima e TaiNARA “NARA” Torres. Elas estão sob o comando do coach Brunno “Sllayer” Silva.

    Visando elevar o nível da modalidade, o Santos e-Sports investiu em estrutura e condições oferecidas às atletas, além de rotinas de treinos elaboradas, pois jogadores de videogame profissional precisam de treinamento para exercício das habilidades com disciplina semelhante a de qualquer modalidade esportiva.

    Lara realizou uma transmissão de estreia na equipe nesta quinta-feira (31):

    https://twitter.com/larinhagoddess/status/1002234934549995521

    As jogadoras são veteranas no game da Valve, tendo iniciado no competitivo muito cedo, como por exemplo Letícia “Le^” Lima, que começou a jogar com onze anos, ainda na versão 1.6 do jogo. O currículo competitivo das meninas demonstra a experiência, com passagens por organizações como: Brave e-Sports, 2kill Gaming, ProGaming, Team Wild entre outras.

    TaiNARA “NARA” Torres falou sobre a nova fase: “Quando recebi a proposta do Santos eu fiquei muito feliz, pois sempre quis ter uma oportunidade na qual pudesse fazer do game o meu trabalho, e é isso que o Santos está me proporcionando, me ajudando a realizar meu sonho, vou dar o meu máximo, me dedicar como nunca dediquei ao lado das minhas companheiras”.

    Os objetivos da equipe são ambiciosos: em curto prazo, dentro do cenário nacional, participar da tradicional Liga Feminina da Gamers Club e de outros campeonatos do calendário feminino e misto; em longo prazo, despontar no cenário internacional.

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    O técnico da equipe, Brunno “Sllayer” Silva, acredita que o competitivo feminino não é muito explorado na atualidade: “Recentemente aceitei o desafio de treinar pela primeira vez um time feminino e tenho percebido o tamanho do potencial inexplorado que esse cenário tem”, afirmou.

    A presença feminina nos esportes eletrônicos, que para alguns é considerada pequena, na verdade vem se comprovando cada vez maior, tanto com aumento no número de atletas e equipes, quanto na audiência: um estudo da e-Sports Ad Bureau e da empresa de pesquisa Magid realizado em março de 2017, com a participação de 1.000 consumidores de 16 a 45 anos, atestou que as mulheres constituem um terço do público de e-Sports. 78% das mulheres que seguem as competições eletrônicas são novos espectadores.

    O cenário competitivo profissional possui grandes estrelas mundiais, com faturamento de milhares de dólares e destaque nos mais variados jogos: Sasha “Scarlett” Hostyn, jogadora de StarCraft II, ganha cerca de US$ 270,7 mil (R$ 1,03 milhão), é um exemplo de atleta bem sucedida.

    O meio também revela narradoras, apresentadoras e influenciadoras digitais, que usam redes sociais e serviços de streaming para a comunicação com o público, comentando, divulgando notícias e transmitindo jogos ao vivo, interagindo e se tornando conhecidas dentro de um nicho que aumenta a cada dia: segundo o instituito de pesquisa Newzoo, o Brasil é o terceiro maior público de eSports do mundo, ficando atrás apenas da China e EUA.

  • O que realmente compensa: salvar a vida de outros ou salvar a si mesmo?

    Pedro nasceu motorista. Habilidade no volante, como a dele, dizem que não há. Sonhava ser piloto de fórmula 1, não sendo de família de posses, não existia razão para tanto. Trocou, então, as pistas de corrida, pelas avenidas e aterros do Rio de Janeiro, a Ferrari pela viatura do Corpo de Bombeiros. Na corporação, fez carreira.

    Carlos era um esportista. Sempre preferiu praia aos estudos. Depois de ter passado por três faculdades, formou-se em Direito. Só o diploma, sem o certificado da OAB, não era garantia de emprego. Muito simpático, vivia rodeado de amigos. Foi com a indicação de um deles, que ingressou, em empresa de Economia Mista. Lá se fixou. Afinal, podia juntar o útil (amigos) ao agradável (salário). Depois de um tempo, foi cedido para uma Secretaria de Estado, com vantagens salariais, subiu na escala de cargos.

    É uma segunda-feira. Pedro encontra-se de plantão na Unidade de Socorro. Por volta das 14 h recebem um chamado. Parada cardíaca. Em poucos minutos, com destreza no volante, ele e o médico do plantão chegam no local, onde um socorrista do SAMU, encharcado de suor, fazia a massagem cardíaca. Juntaram-se a ele. Usaram todos os recursos. Em meio a grande tensão, o coração voltou a bater. Em poucos minutos, removeram o paciente até o hospital, atravessando os congestionamentos das ruas, usando a contramão, arriscando-se. Enfim, a vitória da vida pôde ser, mais uma vez, comemorada.

    Pois bem, leitor, sabe o que Carlos, o bem-sucedido burocrata, à pouca distância, fazia a essa hora? Em sua sala, no conforto do ar condicionado, entre um cafezinho e outro, acessava as redes sociais, mantinha uma conversa animada, dava gargalhadas. Nada de mais, pois era assim que salvava a si mesmo e o que mais lhe importava: sua mulher, os filhos, o apartamento confortável na Barra e as viagens.

    Essas são estórias de homens que “salvam”, mas com finais muito diferentes. É que, os salários dos que se arriscam para salvar a vida de outros, se somados, não alcançam o valor da remuneração mensal de um único “Carlos”. Mesmo porque, apesar das mudanças constantes de Base, socorristas não são “Comissionados”, alguns nem sequer recebem insalubridade e outras tantas vantagens pecuniárias pagas aos que salvam a si mesmo.

    Tudo normal, já que as estórias se passam em um país acometido pela cegueira das paixões humanas, não enxergando, portanto, seus verdadeiros heróis.

  • O primeiro livro impresso e a nova geração de leitores

    A respeito de questão levantada por uma mãe, em reunião de pais da Catequese, relativa à necessidade de se ensinar às crianças o manuseio e leitura da Bíblia, gostaria de apresentar alguns pontos baseados em estudos de especialistas em Literatura.

    A Bíblia, apresentada em forma de livro (papel, tinta, capa) já passou a ser difundida por meio de processos eletrônicos. É claro que, se ela não se manifestar pelos vários suportes que acompanham a evolução do mundo, a Palavra de Deus perder-se-á no tempo.

    Alguns estudiosos consideram que estamos na era do “Fim do livro”, o que não significa o “Fim de leitores”. De acordo com a história, sabe-se que a escrita evoluiu da inscrição em barro, metal, pedra, pergaminho (pele de carneiro), papiros, rolos, códices, até chegar aos livros. Foi com o lançamento do primeiro exemplar impresso da Bíblia, que Gutemberg, inventor da imprensa, inaugurou a era do livro, em 1450.

    Portanto, mudanças não determinam rupturas, mas sim, continuidade, desde que ocorram adaptações. Hoje temos computadores, celulares, e-book. Com relação à Bíblia, o que muda é o objeto material usado para difundir a Palavra de Deus. A Mensagem, no entanto, permanece imutável, atual e verdadeira.

    Pois bem, não podemos nos esquivar diante dos avanços tecnológicos, sob o risco de distanciarmos cada vez mais, da nova geração nascida e educada na era virtual. Esses leitores, mais do que nunca, podem desfrutar de largo acesso, em seus computadores e celulares, de textos bíblicos, que se apresentam expressos não só por palavras, mas também por atraentes imagens.

    Cabe à catequese instruir sobre o manuseio da versão impressa da Bíblia (tarefa nada interessante para as crianças), mas, deve, principalmente, incentivar os pais, para que junto com seus filhos procurem em sites cristãos, textos e imagens (filmes, vídeos) representativos da Sagrada Escritura, bem mais fascinantes ao olhar da nova geração. Basta acessar o Google e digitar “Bíblia”.

    Teresinha Gema Lins Brandão Chaves
    Doutora em Literatura pela USP e catequista de crianças.

  • 7X7 – Depois de muita bebida…na dúvida, é melhor fazer um check-up

    Sentia o corpo cada vez mais mole. Ele, que sempre gostou de levantar-se cedo, agora não conseguia acordar antes do meio-dia, apesar do barulho e agitação da rua. Nos dois últimos dias, não teve ânimo nem para o banho, nem para aparar o bigode. Reconhecia que estava exagerando um pouco mais da “caninha”. Mas que coisa!.. em outras épocas bebia muito mais!

    Ajuntou as coisas de qualquer maneira e foi até o orelhão. Sabia o número decorado. Do outro lado, atenderam. Respondeu todas as perguntas, deu o endereço. Sentiu uma pontadinha do lado esquerdo da barriga. Remorso ou ansiedade?

    Em 7 minutos a ambulância estacionou em frente ao número informado. Um muro pichado escondia a antiga fábrica de papel. Um morador de rua se aproximou da viatura. Deitou-se no chão.
    Então, era ele quem havia ligado?…

    Reviraram-no ao avesso, fizeram perguntas, mas nenhum sinal grave encontrado.

    Cumpriu-se o protocolo. No rádio, já outro chamado. Para garantir o lugar, o “paciente imaginário” levantou-se do chão. Correu até à ambulância, abriu a porta, deitou-se na maca. Com voz firme, ordenou:

    • Anda! anda! vamo! depressa! vamo embora!

    Levaram-no para a AMA- Lapa. A surpresa maior foi saber que lá, ele já era velho conhecido. De vez em quando, Seu Antônio Bigode, morador de rua, de tanto se encharcar, aparecia por lá, querendo fazer uns inzames de ultrassong e Xêkapi!

    (7X7 é uma série ficcional, baseada em fatos reais vivenciados por um socorrista em São Paulo). 5º episódio.

  • 7X7 | Falta de equilíbrio e asfalto quente: uma combinação perigosa

    Não era a primeira vez que recebiam aquele tipo de chamado. Vítima com queimadura grave.
    Era sexta-feira, sete horas da manhã. Havia caído uma chuva fina. A ocorrência não era longe, mas o trânsito estava terrível. Ligou a sirene. No caminho, um carro da polícia deu cobertura. Chegaram em 7 minutos.

    O condomínio estava em fase final de construção. As casas de 80 metros quadrados em dois andares, cheirando tinta nova, a grama plantada na véspera e o paralelepípedo branco contrastavam com o cheiro e a cor do asfalto fresco da pavimentação das ruas.

    Trabalhando há dois anos como ajudante de pedreiro, Antônio nunca tinha estado doente, desde que se mudara para São Paulo. Tinha com ele um santo protetor poderoso, assim dizia, do qual herdara o nome e no qual tinha muita fé.

    Era baiano de nascença, mas paulistano de paixão, sentimento que nutria desde pequeno. O namoro antigo, teria se iniciado com a chegada em casa, da primeira televisão. Aqueles prédios enormes envidraçados, ruas cheias de gente e carros, que apareciam nas novelas e no noticiário, mexeram com sua imaginação. Assim, quando jovem, não teve mais dúvidas. Vendeu o pouco que tinha e partiu.

    O começo difícil em São Paulo se estendeu pelo resto dos anos. Fez de tudo um pouco: vendeu cd’s piratas nas ruas, balas nos trens e ônibus, foi chapa de caminhão, lavou muito carro até poder exercer sua verdadeira vocação: ser ajudante de pedreiro. Casou-se, teve filhos.

    Naquela sexta-feira, chegou cedo no condomínio em construção. Tomou o café, trocou a roupa e foi logo pegando seu carrinho de mão. Encheu de areia até onde pôde. Saiu do depósito. Virou a esquina. Freou. À sua frente, o asfalto fresco cobria toda a rua. Pensou. Decidiu passar pelo paralelepípedo. Empurrou o carrinho pesado. Subiu. O vapor quente do betume entrou por suas narinas. Instintivamente levantou um dos ombros para tampar o nariz. Perdeu o equilíbrio. Em fração de segundos, espalhados sobre o piche fervente: areia e homem. Na tentativa de se erguer, outras partes do corpo entraram em contato com a matéria pegajosa e quente.

    O Samu logo chegou. Na entrada do condomínio, avistaram um vulto negro, de braços abertos, correndo em direção à ambulância. Gritava de dor. Colocaram-no na maca. O betume, a carne, a pele, o tecido da roupa eram uma coisa só. Usaram pela primeira vez, a atadura importada sobre a massa disforme. Aliviou a dor. Levaram-no para o Hospital das Clínicas, direto para a ala de queimados.

    De volta à Base, no lugar da sirene, ressoava na memória, os gemidos sofridos de dor.

    (7X7 é uma série ficcional, baseada em fatos reais vivenciados por um socorrista em São Paulo). 4º episódio.

  • 7X7 | Os ricos também choram

    Era seu primeiro atendimento na Vila Madalena. Lotado na Lapa, até então os chamados tinham se resumido ao atendimento a velhos senhores e amáveis senhoras vítimas de quedas ou de problemas cardíacos e respiratórias.

    Saiu com a sirene ligada. Talvez nem precisasse. Alcançou a Pedroso, entrou por ruas bem tranquilas do bairro. Não gastou mais do que sete minutos. Parou em frente ao número, achou estranho, pensou ser um trote. Estranhou, sim, a ausência da vizinhança tão comum nas emergências da Lapa. No antigo bairro, os longos anos de convivência entre as famílias haviam formado um exército de solidários, que precavidos, já tratavam de reservar espaçosa vaga, para a viatura estacionar. De longe, já se via gente batendo os braços, sinalizando o local exato da ocorrência. Sempre prontos para prestar “socorro” aos socorristas, ofereciam-se para tomar conta da ambulância, ajudavam a carregar macas, perguntavam sobre o estado do paciente e para qual hospital seria levado. Na saída, abriam caminho, parando o trânsito. Agradeciam, elogiavam.

    Na Vila, porém, nenhuma alma viva. Olhou o celular. Quatro e vinte da tarde. Estava com a impressão de ser bem mais tarde, de tão agitada estava aquela segunda-feira. Os atendimentos da manhã já formavam um quebra-cabeças na memória.

    Pegou as anotações. Conferiu o chamado. “Segundo eco Terceiro” …. Coçou a cabeça…. Costumavam ser bem complicados.

    Um senhor atendeu a campainha. Muito aflito, enquanto atravessava corredores, salas, salões, guiando a equipe, lamentava o ocorrido.

    Chegaram no quarto onde um jovem estava estirado no sofá.
    Assim que examinado, os dados foram anotados, transmitidos e a remoção autorizada. Na última Intoxicação Etílica, a pouco menos de um mês, o rapaz havia estado em coma. No exame, alguns sinais de alerta foram percebidos.

    Voltou até à ambulância, para pegar a maca. Custou a acertar o caminho, tão grande era a casa.

    Não havia imaginado o socorro aos ricos. Pensava que todos eles, em suas emergências, fossem socorridos por seus planos de saúde, em veículos confortáveis e equipados ou por helicópteros e UTI’s aéreas. Ainda bem que mantinha a ambulância sempre limpinha e com o check-list em dia. Assim, não ficaria envergonhado.

    Posicionou a maca ao lado do sofá. Estendeu os braços para oferecer auxílio. O jovem, ergueu-se um pouco e com um aperto mole da mão, disse: – Muito prazer e muito obrigado… Podem ir! Vocês devem estar muito ocupados!
    Insistiram na remoção. Não teve jeito.

    Atordoado, com olhos lacrimejantes, o pai assinou o Termo de Recusa.

    Enquanto a equipe voltava para a ambulância, carregando equipamentos e maca, outro chamado no rádio.

    (7X7 é uma série ficcional, baseada em fatos vivenciados por um socorrista em São Paulo). Terceiro episódio.

  • Motivos pelo qual Ben Affleck não vai mais continuar como Batman

    Nas últimas semanas muito se falou sobre a saída de Ben Affleck do Universo da DC no cinema, mas nada foi confirmado oficialmente. Porém, há várias razões que indicam que sua saída está praticamente confirmada. O que pode ser bom para alguns, não é nada bom para o universo cinematográfico da DC Comics.

    Mesmo ainda sendo boato, acredito que Ben Affleck não vai mais ser o Batman por dois principais motivos. O primeiro deles é o direto do filme The Batman, Matt Reeves, que além de declarar que Ben não teria sido sua escolha para o papel, tem uma ideia mais jovem do personagem.

    E outra, quando o diretor do filme quer mesmo trabalhar com algum ator, ele deixa claro, fala abertamente os motivos pelo qual escolheu tal ator para tal papel. Isso não aconteceu aqui. As notícias dos bastidores são justamente o contrário e Ben sabe e sentiu isso.

    Matt estaria forçando a barra para ter outro ator interpretando Batman em seu filme. Isso já ficou bem claro.

    O segundo motivo é em relação ao próprio ator. Desde a sua escolha como Batman, uma grande reação negativa circulou na internet por meses. Injustamente, diga-se de passagem. Ben não teve problemas graves de interpretação, pelo contrário, fez um Batman até que memorável. Claro que o ator não consegue fazer milagre com um roteiro fraco nas mãos, mas ele fez o que pode.

    Além disso toda a negatividade da imprensa, fãs enlouquecidos e haters de todos os lados, refletiu na vida pessoal do ator. Ele voltou a ter problemas com álcool e drogas. Esse envolvimento dele com o personagem está fazendo mal a sua saúde e esse é um motivo e tanto para se afastar de futuros projetos.

    O próprio ator disse recentemente que está procurando uma “maneira legal” para se despedir do personagem.

    Sim senhoras e senhores. Este texto sugere que vocês, fãs enlouquecidos, fanáticos lunáticos, imprensa parcial e haters de todos os tipos foram os responsáveis por isso. Do mesmo modo que foram responsáveis pelo desastre de BvS e Liga da Justiça. Mas isso fica para um próximo texto.

    Agora, o que nos resta é saber em qual filme veremos Ben Affleck pela última vez, pois é uma questão de tempo até isso acontecer.

  • 7×7 | O outro lado do trote

    Olhou o celular. 13:52.

    – Ufa! Será que vou ter ao menos 10 minutos para o almoço!? Que manhã estressante! Chuva o tempo todo, trânsito terrível. Dois acidentes com moto, criança ferida, maca presa no Hospital do Servidor, tudo muito desgastante!
    Colocou a marmita no micro-ondas e foi lavar as mãos. Assentou-se para tirar as pesadas botas. Escutou a voz no rádio. Foi ver o que era. A colega de plantão já estava na escuta: – … Q.A.P … Q.S.L…. Ela desliga o aparelho apressada. Era um “6 eco 1” na Lapa.

    Correu para retirar a marmita do micro-ondas. Colocou de volta na geladeira. Tinha que ganhar tempo. Saiu carregando as botas.

    Esqueceu o cansaço e a fome. As paradas cardíacas exigiam um esforço físico extremo, muita perícia e agilidade. O apoio do Avançado seguiria depois, mas no primeiro atendimento, só ele e a enfermagem.

    Ligou a sirene logo na saída da Base. O som estridente se misturava com o da barriga roncando de fome. Pegou o trânsito parado. Teve que se virar. Atravessou uma enxurrada pela contramão. Subiu no passeio de um quarteirão inteiro da Rebouças, com muita cautela, para furar o engarrafamento. Em 7 minutos alcançou a Aurélia. Percorreu a Rua Tito, por duas vezes, de cima a baixo. O número não foi encontrado. Ligou para a Central…. Confirmado o trote.,, QTI …

    De volta para a Base, trânsito infernal, sirene desligada, a barriga roncando e o rádio da Central pipocando chamados.

    7X7 é uma série ficcional, baseada em fatos reais

  • 7×7 | Almoço com conhaque… faz mal?

    7 x 7 – Histórias reais, em 7 minutos, de um socorrista em são paulo

    Naquele dia acordou desanimado. Era domingo, dia das mães. Pensou no primo carioca, convidado para o almoço da família. Imaginou o “puxa-saco” sentado na mesa, a bacalhoada borbulhando na panela de barro. Que droga! Com a mente borbulhando, vestiu a farda. Calçou as botas. Pegou a marmita na geladeira e saiu.

    Quando passou no concurso, pensou mil vezes. Sempre quis trabalhar na rua. Apesar do diploma de curso superior, sentia um tremendo mal-estar estando trancado, de frente a uma mesa cheia de papéis, clicando teclados, o universo resumido em uma tela. Apreciava o movimentar das coisas reais. Era observador e solidário. Não havia um mendigo que deixasse de ir até o vidro do seu carro, para pedir-lhe uns trocados. Sempre dava alguma coisa e ainda puxava conversa. Sentia-se como um imã a atrair as margens do mundo. Por isso, a convocação para socorrista fez disparar-lhe o coração. Iria sem pestanejar, se não fosse a carga horária: 12/36. Trabalhar aos domingos? No Natal? No Réveillon? Seria impossível! Repensou. Aceitou o desafio.

    Acostumou-se com a nova rotina, mas, naquele domingo, sentia-se incomodado. Seu prato predileto seria servido no almoço, acompanhado pelo vinho, que ele dera na véspera, de presente para a mãe. No seu lugar, estaria o primo glutão, dando risadas e abocanhando o peixe.

    Chegou à Base da Politécnica, com sete segundos de atraso. Ficou envergonhado, afinal a pontualidade era sua marca registrada, mesmo nos domingos e feriados. Rendeu o socorrista da noite. Tomou o café. Colocou-se à espera dos primeiros chamados. Haveria muitas ocorrências? Dia das mães deveria ser sagrado.

    Neide, a enfermeira do plantão, enfim chegou. Trazia de casa uma bela lasanha e belíssimas filhas sorridentes, para o almoço do dia das mães. Nada mal… Mais animado, buscou no bar da esquina, os refrigerantes.

    Por volta do meio-dia, a mesa preparada, ouviu-se o rádio: – QSM! QSM!. – Ocorrência… Vítima feminina, idade quarto, nulo… desacordada … numeral sétimo sexto, Rua MDC, em frente ao ponto de ônibus.

    A lasanha foi guardada no forno, as filhas, já não tão sorridentes, ficariam esperando.

    O trânsito estava livre. Nem precisou acionar a sirene. Em sete minutos chegou. No ponto de ônibus, a senhora estendida no chão…

    Dona Vitória, há dois anos morando em São Paulo, tinha se levantado muito cedo. O emprego como doméstica, numa mansão no Morumbi, foi conquistado com muito sacrifício. Ainda estava pagando o curso de cozinheira do SENAC. Mas valeu a pena. Sua habilidade na cozinha havia conquistado a patroa, que não se cansava de contar às amigas, detalhes dos seus pratos saborosos. Isso até aquele dia fatídico!

    Não teve como deixar de atender o insistente pedido da patroa. Aceitou trabalhar no domingo. Teria preferido ficar com os dois filhos pequenos. Ao levantar-se sentiu-se estonteada. Não deu importância. Pegou o ônibus até a estação de Carapicuíba, pegou o trem. Desceu na Barra Funda, pegou o metrô. Desceu no Butantã, pegou o ônibus. No domingo, sempre demoram. Desceu no Morumbi. Subiu os cinco quarteirões. Atrasada, foi direto para a cozinha, começou a preparação do almoço.

    Ao meio-dia o 192 recebe um chamado.

    – Alô! Uma senhora está caída na calçada!…

    Ao ser tocada, abriu os olhos, retomou os sentidos. Os sinais vitais estavam alterados. Foi colocada na maca e levada até o PS-USP. No caminho, chorou e desabafou. Justo naquele dia, a casa da patroa cheia de convidados, a cabeça pesou, o calor da cozinha piorou, tão agitada estava, com mil coisas a fazer ao mesmo tempo, acabou queimando o almoço. Foi humilhada, cobrada pelo prejuízo e despedida do emprego.

    No retorno para casa, pegou o ônibus, desceu no Butantã. Atordoada, parou no primeiro bar. Pediu uma garrafa de conhaque. Virou tudo. Com a cabeça rodando e as pernas vacilando alcançou o ponto de ônibus. Não viu mais nada.

    E lá na Base, a lasanha esfriando e as filhas, já nada sorridentes, esperando…